Uma deliciosa conversa ao pé do fogo!

Amo as estrela, pois mesmo tão distantes nunca perdem seu brilho, espero um dia me juntar a elas, e estar presente a cada anoitecer alegrando o olhar daqueles que amo

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Cisne Negro da asa partida. Uma história de lobinhos.


Lendas escoteiras.
O Cisne Negro da asa partida.
Uma história de lobinhos.

                   Beth Blue era muito amiga da Celia desde os tempos que ambas foram coordenadoras bandeirantes. Beth Blue me visitava uma ou duas vezes por ano. Eu a conheci em cursos, pois sempre recorria a ela pela sua vasta experiência com lobinhos. Era Akelá em um grupo do outro lado da cidade. Infelizmente pela idade poucos a convidavam. Não dá para entender. Lembro que ha alguns anos atrás ela me contou esta história. Era uma tarde linda. Junto com a Célia ela nos fazia companhia na varanda e o sol ia aos poucos se pondo no horizonte. Beth Blue sabia contar histórias. Narrava com perfeição. Prendia a todos nós com seus gestos, seu timbre de voz que mudava de acordo com o desenrolar da história. Ela me garantiu que era uma história verdadeira. Como duvidar de Beth Blue?

                   Olhe Chefe, no verão passado fomos fazer um acantonamento No sítio Caminho Azul de um pai de um Escoteiro. Local magnífico. Um lago não muito grande, um bosque gramado, um campinho de futebol e um riacho pequeno de águas límpidas. Os lobinhos adoraram. Nossa Alcatéia era composta de dezoito lobos. Dez meninos e oito meninas. Muitos com um ou dois anos de atividade. Pretendíamos ficar lá três dias aproveitando um feriado prolongado. A casa sede tinha dois quartos e mesmo assim levamos quatro barracas. Se o tempo permitisse dormiríamos em casas de lona. Chegamos cedo. Por volta de nove da manhã. Duas mães estavam conosco para ajudar nas atividades e refeições. Eu estava com mais três assistentes. Um Balú, uma Kaá e a Bagheera. A Chill não pode ir.

                   Mas vamos ao que interessa. Após o almoço cuja matilha branca alega que foi ela quem fez (risos) claro sem esquecer as duas mães cozinheiras, nós fomos fazer um jogo calmo. Não tão calmo e sabíamos que ele levaria pelo menos uma hora para ser todo desenvolvido. Eram três bases. Uma um Assistente escondia em cima de uma árvore um relógio que devia ser visto de um só ângulo. Outra um Assistente com duas sacolas e a cada cinco segundos tirava um objeto, o jogava para cima e guardava na segunda sacola. Seriam vinte objetos. A terceira um sisal amarrado entre duas árvores a uma altura de três metros aproximadamente e quatro petecas.

                    O jogo consistia no seguinte: - Uma matilha em cada base. Quinze minutos para cada uma desenvolver sua tarefa individualmente. Na primeira eles deveriam ver no perímetro marcado onde estava o relógio. Avistando não deveriam apontar e nem dizer nada. Iam até o Assistente responsável e em uma prancheta escreviam onde estava e assinava e dizia uma lei do lobinho. Após os quinze minutos um grito longo de Lobo, trocavam-se as bases. Na segunda eles deviam observar por um minuto os objetos que eram jogados ao ar e memorizar. Depois cada um recebia uma caneta e uma folha de papel para escrever o que estava na memória. Em seguida deviam em conjunto cantar alguma canção Escoteira. A terceira base cada um devia usar a peteca, dar uma palmada que devia atravessar por cima do sisal, ante de cair o lobo ia para o lado contrário e dar outra palmada devolvendo. Ai a peteca podia cair ao chão. Se isto acontecesse ele teria feito a prova. Para não demorar a base tinha quatro petecas.

                   Tudo corria tranquilamente, os lobos se divertindo e o tempo foi passado. Pensamos que dez ou vinte minutos por base seria suficiente. Pretendíamos naquela tarde que o banho no riacho fosse feito mais cedo. Foi então que Letícia, uma lobinha de oito anos veio correndo avisar que viu um lindo Cisne Negro. Interessante. Não sabia que ali existiam esses pássaros. Fui até lá com ela. O cisne Negro era um espetáculo. Se abrisse as asas acho que teria bem um metro de envergadura. O cisne tinha os olhos fixos para uma árvore. Não se importava conosco. Nem nos olhava. Logo todos os lobos ficaram em volta. O cisne nem estava aí. Só olhando para a árvore. O Balu tentou descobrir o que tinha na árvore. Conseguimos avistar lá em cima um grande ninho. Só podia ser do Cisne Negro. Observando melhor o Cisne notei que uma das asas estava meio caída. Deduzimos que ele ou ela não podia voar.

                   Deveriam existir filhotes e o Balu subiu na árvore e confirmou. Eram dois e piavam sem parar. Lembrei que eu tinha feito uma pesquisa há tempos sobre Cisnes. Chamei a Alcatéia e aproveitar para falar sobre eles. Enquanto isto o Balu foi até o lago a procura de plantas e pequenos bichinhos para alimentar os filhotes. Os lobos em volta do cisne que não olhava para ninguém. Só para a árvore. – Sabem lobinhos, comecei – O cisne gostas de lagos, brejos e outras áreas de água doce ou salgada. Vivem em bandos. Alimentam-se de plantas aquáticas e parei de falar. Vi que Norminha uma lobinha se aproximou do cisne. Passou a mão em sua cabeça. Ouvimos um cantar diferente. Não identifiquei. Parecia que o Cisne chorava. Toda a Alcatéia começou a chorar.

                   Levei os lobos para a Casa Grande, tentamos mudar o rumo do programa, mas o Cisne não parava de cantar. A noite ele calou. No dia seguinte ainda estava lá em pé olhando para a árvore. O Balu alimentava os filhotes duas vezes ao dia. No dia do retorno, os lobos levantaram cedo. Correram até devia estar o cisne. Não estava mais lá. Como? E a asa partida? E os filhotes? O Balu subiu na árvore e encontrou o ninho vazio. O cisne e os filhotes haviam partido. A lobada começou a chorar. Tentamos mostrar que foi bom, que a mãe e os filhotes agora podiam voar e foram para onde deveriam ir. Eu sabia que quando se aproximava o inverno eles em bandos descolocavam para regiões de clima mais ameno. Mas não adiantou. Os lobos com olhos vermelhos chorando por não verem mais o Cisne Negro da Asa partida.

                 Às quatro da tarde, já com a tralha pronta, fomos para o cerimonia de bandeira. Os lobinhos formados em círculo e em posição para o Grande Uivo. Quando eu ia fazer o sinal ouvimos um barulho de asas. Olhamos para cima, centenas de cisnes voando em direção ao infinito. Três deles desceram até nós, um grande e dois pequenos. Eram eles! Voaram sobre nossas cabeças por alguns segundos e partiram. Todos calados. Um grito explodiu na alcatéia. Uma alegria imensa. Todos gritaram alto – Bravô! Os lobos sabiam que era o Cisne Negro e seus filhotes que vieram se despedir. Ninguém nunca mais esqueceu. Contavam a todos na sede, seus amigos da escola e a história durou muitos e muitos anos.


                  Beth Blue se calou. Olhei para ela, Célia também. E? - Fim Chefe. Nada mais. A noite chegou. Um cafezinho e Beth Blue partiu. Fiquei ainda por longo tempo na varanda. Uma ótima história. Seria verdade? Sei não. E como se diz por aí das histórias escoteiras contadas: - Feijão não é vaca, boi não é arroz. E quem quiser que conte dois! 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

As coisas boas na vida de um Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
As coisas boas na vida de um Escoteiro.

As coisas boas quando fazemos escotismo à gente não esquece. Quer ver? Vou mostrar, mas sei que você se estivesse aqui ao meu lado teria outras tantas para contar. São coisas boas que todo Escoteiro e Escoteira sabe, pois já passou por isto. E sabem? Esta é a força que o escotismo nos dá. A força de não esquecer. A força de um amor que vai surgindo até estar no sangue, no espírito e no coração.

- Duas horas da tarde, o sol a pino. Montando campo de Patrulha. Uma fome terrível. A fumaça do fogão aparece, a gente dá um breve sorriso. Logo cozinheiro batendo nas panelas – Almoço pronto! Sentamos na nossa mesa, o cozinheiro nos serve. Um belo tutu de feijão com torresmo e ovos estrelados. Puxa!  Um manjar dos deuses. Quer melhor que isto? São coisas boas da vida.

- Jornada noturna a pé. A gente sempre vibrando. Nove da noite, encontro, revisão e partida. Uns doze se muito. Risos, canções nos primeiros quilômetros. Depois um cansaço terrível. Olhos piscando. – Jesus! O que vim fazer aqui? – Chefe grita – trinta minutos de descanso. Ah! Pés para cima. Sangue circulando, começo a cochilar. Sem palavras. E bom demais tudo isto.

- Reunião de sede. Todos formados. Chefe vai à frente e diz – “Com orgulho quero entregar ao Escoteiro “fulano” autorizada pela UEB do Distintivo de Escoteiro da Pátria” Meu Deus! Sou eu. Maior alegria? São coisas boas da vida.

- Um grande jogo. Um sol a pino. Um calor enorme. Corre daqui, corre dali pega um e outro é pego. Cansado, muito mesmo. Damos uma volta no morro, um enorme castanheiro, uma sombra incrível! Deitar, cochilar, refrescar e o jogo? São coisas boas da vida.

- Acampado. Trovões e relâmpagos uma enorme tempestade. Evitem árvores diz o Chefe. A barraca dança com o vento. Nos meus doze anos eu morro de medo. Os pingos fazem um barulhão na barraca. Meia hora depois o sol aparece. Saímos. Olhamos para o céu limpo. A chuva se foi. Melhor que isto? São coisas boas da vida.

- Tarde livre – Pescaria. Não pesco nada. Lindo remanso com peixes pulando. Fico pensando o por que. Ao meu lado meus amigos sempre fisgando. Que coisa! Minha linha corre. Seguro a vara. Puxo devagar, um piau enorme. Todos correndo para ver. Alegria. São coisas boas da vida.

- Caminhada enorme, pés doendo, o sol rindo da gente. Chapéu tentando dar sombra, o suor escorrendo, na curva se avista um regato, águas límpidas, um som imperdível para um Velho mateiro. Vinte minutos! Diz o Chefe. A gente corre, tira o sapato, as meias, pés na água gelada. Putz! Vai ser bom demais lá...

- Uma subida enorme, um pico inalcançável. Longe demais, uma trilha cheia de pedras, a gente escorrega e não desiste. Subida íngreme. A gente usa as mãos na escada de terra. Aqui e ali uma picada de um inseto. Então a gente chega, senta em uma pedra enorme. A vista? Nossa! Espetacular, montanhas, cidades e pequenas estradas parecendo que a gente está no céu a observar. E nem se lembra mais da subida. Bom demais!

- Montando campo de patrulha. Uma mesa sendo construída. Medida exata de cada acha de lenha. Mãos vermelhas mais tarde os calos vão aparecer. Uma amarra quadrada aqui e ali uma paralela. Os galhos pequenos já cortados para o estrado. Uma costura de arremate. Um corte pelo sisal. Terminamos. Uns passos para trás, olhar nossa pioneiria. Linda de morrer. Valeu os calos e o sangue saindo de um dedinho. Bom demais!

- Chegar à sede. Todos correndo. Monitor me cumprimenta. Diz que sou importante na Patrulha. Chefe chega. Me dá sempre alerta. Dá um tapinha nas minhas costas e diz – sabe fico contente em ver você aqui sempre. Olha para mim e dá um sorriso. Obrigado ele diz. É ou não é as coisas boa da vida?

- O Fogo de Conselho, todos brincando, rindo, cantando e alguém distribui um cafezinho, uma bolacha, minha hora com a patrulha do esquete. Palmas, sentamos novamente e o Chefe nos convida para a Cadeia da Fraternidade. Mãos entrelaçadas, olhos fitando o infinito, a canção entra na gente. Dá uma vontade de chorar. Depois termina, olhamos em volta quantos amigos eu tenho! Bom demais, uma emoção que nunca será superada.

- O fogo do Conselho terminou, as brasas vão se apagando. Pequenas fagulhas fujonas ainda se arriscam a subir aos céus. Uns poucos em volta do fogo. Deitados na grama, uma leve brisa, o orvalho começa a cair, a gente de olho no céu. Não pisca milhões de estrelas brilhantes, uma estrada iluminada no céu. Um cometa passa deixando um rabo brilhante e a gente? A gente logo faz um pedido. Meu Deus! Faça todos felizes. É bom demais.

- Um olho aberto depois outro. A voz do Monitor e o apito do Chefe. Hora de levantar. Alvorada! Uma nesga de sol aparece na porta da barraca. Poucos se arriscam a levantar. Um sono incrível. Quem sabe a melhor hora para dormir. Mas o dever vem em primeiro lugar, à física e depois a inspeção. Monitor diz – Senhor obrigado pelo novo dia. Mãos a obra, um café gostoso um pão meio duro, mas nunca comi melhor. Campo preparado, inspeção. Bandeira. Olhar fixo e o Chefe a dizer: Patrulha X tirou o primeiro lugar. Você olha para seus companheiros é putz! É a sua. Vai ser bom demais assim lá...
  

- E quantas e quantas coisas boa da vida acontecem a todo o momento? Quantas alegrias surgem assim sem a gente esperar? Ei você escoteiro! Fique aqui ao meu lado. Conte as suas. Dê um sorriso mesmo se lembrar das ruins. Olhe para mim, sinta nossa sintonia. São coisas que só nós Escoteiros temos afinal se Somos irmãos Escoteiros só isto não são coisas boas da vida?

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Chifre de Kudu.


Conversa ao pé do fogo.
O Chifre de Kudu.

             O Kudu (Tregelaphus strepsiceros) é uma espécie de antílope cujo habitat vai desde a África do Sul á Etiópia. Um touro Kudu pode chegar a uma altura de 1,5 metros e tem uma coloração que vai de um cinzento avermelhado até quase azul. As suas características de visão aguçada, bom sentido de audição, olfato apurado e grande velocidade fazem dele um animal difícil de capturar. Seguindo uma tradição que remonta há 90 anos, as patrulhas são chamadas a reunir com o toque tradicional do chifre de Kudu, durante os cursos da Insígnia de Madeira. Pode parecer estranho que o chifre de um antílope africano, do tipo usado pelos Matabeles como clarim de guerra no século XIX, seja usado para chamar Escuteiros e Chefes por esse mundo fora. Mas foi precisamente com um toque deste chifre que os primeiros Escoteiros foram acordados.

Quando reuniu os primeiros escoteiros em Brownsea, Baden-Powell lembrou-se do chifre de Kudu que tinha trazido das guerras contra os Matabeles, e usou-o para dar um toque de aventura e divertimento ao acampamento. De facto, foi durante o acampamento experimental de Brownsea, em Poole Harbour, no verão de 1907, que Baden-Powell colocou ao serviço do Escotismo, e pela primeira vez, o chifre de Kudu. William Hillcourt, um dos grandes pioneiros do Escotismo, o mesmo que escreveu o resumo da história de BP no final do «Escotismo para Rapazes», descreve assim a primeira alvorada em Brownsea:

"O dia começou ás 6h da manhã, quando BP acordou o acampamento com o som esquisito do longo chifre de Kudu em espiral - o clarim de guerra que tinha trazido da sua expedição à floresta de Somabula durante a Campanha Matabele de 1896".

John Thurman, grande nome do Escotismo britânico, conta como BP conheceu o chifre de Kudu:

"Como coronel em África, em 1896, Baden-Powell comandou uma coluna militar na Campanha Matabele. Foi num raid pelo rio Shangani abaixo que ele primeiro ouviu o som do chifre de Kudu. Ele andava confundido pela rapidez com que os alarmes eram espalhados entre os Matabeles, até que um dia se apercebeu que eles usavam o chifre de Kudu, o qual tinha uma grande potência sonora. Era usado um código. Assim que o inimigo era avistado, o alarme era tocado no Kudu, para todos os lados, e assim transmitido por muitas milhas em pouco tempo."

Depois da ilha de Brownsea, o chifre de Kudu voltou para a casa de BP onde permaneceu silenciosamente durante 12 anos, enquanto o movimento que ele anunciara se tornava moda e se espalhava pelo mundo fora. Então, em 1919, Baden-Powell entregou o chifre ao Parque de Gilwell para ser usado nos primeiros cursos para treino de Chefes. William Hillcourt comenta assim o início do uso do chifre de Kudu no Parque de Gilwell, na floresta de Epping, Inglaterra, a oito de Setembro de 1919:
"O primeiro acampamento para treino de chefes feito em Gilwell começou a oito de Setembro. Seguiu o padrão que BP tinha usado com os rapazes em Brownsea, 12 anos atrás. O sistema de patrulhas foi novamente posto á prova com 19 participantes divididos em patrulhas e vivendo uma vida em patrulha. A instrução tomou a mesma forma que em Brownsea. Cada dia um assunto novo era introduzido e aplicado em demonstrações, prática e jogos. O chifre de Kudu dos Matabeles que tinha sido usado para chamar os rapazes em Brownsea foi usado para todos os sinais."

              Dez anos mais tarde, aos 72 anos de idade, Baden-Powell levou consigo o chifre de Kudu para a abertura do 3º Jamboree Mundial, em Arrowe Park, Birkenhead, Inglaterra, a 28 de Julho de 1929. Foi constatado, pela experiência de Arrowe Park, que fazer soar o chifre de Kudu é um desafio. Os resultados, no entanto, foram tão impressionantes quanto se poderia desejar, segundo as palavras de William Hillcourt:

            "O dia da abertura do 3º Jamboree Mundial começou com uma forte chuvada que aumentou com o passar do dia; mas, à hora prevista... o tempo tornou-se «ameno». BP tinha trazido consigo para Arrowe Park o velho chifre de Kudu dos dias da guerra com os Matabeles que tinha sido usado para acordar os acampados em Brownsea no primeiro acampamento de escoteiros do mundo e para abrir o primeiro curso para chefes no Parque de Gilwell. Levou-o aos lábios para dar um toque que haveria de ecoar pela extensa parada em frente dele, mas, com o excitamento, os lábios recusaram-se a fazer o que deviam. O som do chifre não passou de um fraco «pff». No entanto, como que chamados para a ação pelo chifre, a marcha começou, com os contingentes a desfilarem atrás de contingentes em frente da plateia, com as bandeiras de quase todas as nações civilizadas desfraldadas ao vento, com milhares de pessoas a aplaudirem cada nação entusiasticamente.”.


             Ainda hoje o chifre é usado para reunir chefes em cursos de formação em todo o mundo. Para todos os que seguem as pegadas do fundador, é um viver do Escotismo no seu melhor.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Programando o programa.


Conversa ao pé do fogo.
Programando o programa.

       Todo mundo conhece, todos os escotistas fazem. Afinal nada se produz sem ele. Alguns simples, outros complexos, mas todos com o mesmo objetivo. Conheci em minhas atividades escoteiras, muitos programas bons, outros nem tanto. Junto a tantos outros amigos escotistas, fizemos programas de sessões, de Diretoria, de Conselho de Chefes, de Atividades Especiais, de Grandes Jogos, de Região Escoteira, De Ajuris, de Elos, de Adestramento, de Atividades Nacionais e até algumas internacionais. Quando planejamos os programas das sessões e do grupo eles devem se entrelaçar. Como? Pensando em termos que todos os órgãos do grupo os têm (um programa). Alguns grupos todo final do ano fazem uma reunião própria para este tema, (Indabas dos chefes em regime de acampamento é muito válido) e costumam convidar a diretoria e alguns pais que sempre colaboram nos programas anuais. Isto facilita muito para se planejar adequadamente.

     Se um programa geral é feito isto ajuda em muito as sessões escoteiras para fazerem os seus e a diretoria do grupo. Ninguém gosta quando um programa diz uma coisa e a diretoria programa outra sem avisar. Conheço Grupos Escoteiros que no final do ano sempre dão oportunidade aos jovens para sugerir datas do ano seguinte. Quantas excursões, quantos acampamentos, quantas atividades aventureiras e assim por diante. Os lobos também quem sabe podem ser consultados. O Diretor Técnico é responsável para que não haja comprometimento de alguma atividade que não conste do programa geral do grupo. Difícil imaginar um bom programa onde ele sofre constantemente modificações, adaptações e é fustigado por terceiros para sempre colocarem ali, mais um ou outro parágrafo que antes não estava programado.

     O Diretor Técnico, o Conselho de Chefes e a Diretoria tem a obrigação de manter o programa conforme se discutiu e foi aprovado. É importante notar que os melhores programas de sessões e que mantem os jovens ativos e Até BP no Escotismo para Rapazes dizia que o melhor programa é aquele desenvolvido pelos rapazes e moças. Afinal são eles a parte interessada e eles o fazem com perfeição em seus bairros, na sua rua, com os amigos que ali estão sempre juntos por anos e anos a fio. Difícil? Não. É bom lembrar que quem deve gostar do programa são eles. Nós chefes estamos ali para ajudar, orientar e finalizar os dados que ficaram faltando.

      Alguns chefes discordam. Eles acham que os jovens não estão preparados. Alguns dizem que se eles o fizerem, não haverá nada prático. Muitos até irão sair, pois vão ver tudo diferente. Pode até ser. Mas foi tentado? Foi dado a eles ideias sugestões, instruções e aberto um leque de oportunidades? Claro, não estou aqui a dizer que o que escreverem será feito. Tampouco será deixado de lado. Para isto tudo deve ser discutido minuciosamente no Conselho de Patrulhas, no Conselho de Monitores e só após junto a Corte de Honra (muitas tropa só tem a Corte de Honra) será tomada uma decisão de qual programa será o escolhido.

      Nenhum programa ficará sem o “tempero” do chefe e dos assistentes. O que seria o “tempero”? – Jogos, canções, técnicas Conversa ao Pé do Fogo, e claro as sugestões que não estarão ao alcance deles. Tais como, atividades distritais, regionais e nacionais. Mas é importante que estas não ocupem nada mais que 10% do programa anual. Qualquer atividade que apareça sem constar no programa os chefes devem meditar muito antes de mudar. Não aceitar não é sinal de indisciplina é sinal de organização. Ninguém deve ser obrigado a fazer um programa que não foi planejado. Ninguém gosta de sugerir, aprovar e ver tudo alterado sem uma explicação lógica. Aqueles que ainda não trabalham com os jovens nesta área eu sugiro que tentem. Mas não uma vez só. Lembrem-se que aprender a fazer fazendo e acertar até corrigir o erro faz parte do programa Escoteiro. Se derem oportunidade aos jovens na sua sessão para fazer, montar e quem sabe até dirigir um programa em sua tropa, eu garanto que a evasão irá diminuir e muito. Deixe que façam sempre e verifiquem se a presença está melhorando, se os sorrisos aumentaram e se a procura agora é maior. Se for assim estão no caminho certo.

       Aquela velha tendência de reunir chefes e assistentes para montarem programas a curto e médio prazo sem ter um esboço feito pela tropa nem sempre alcançam os resultados desejados. É possível reunir jovens e fazer estes programas. Mas quanto tempo uma patrulha se mantem com seus próprios elementos por anos? Nenhum Chefe gosta de chegar à sede e ver as patrulhas formando com três ou quatro. Ninguém vai deixar seu programa com os amigos da escola ou do bairro, que fazem há anos e gostam por uma reunião de sábado onde não existe motivação e os programas não são agradáveis (para eles).

      Lembramos sempre que BP criou um estilo, um método e fugir dele é saber que os resultados não irão acontecer. Temos hoje uma evasão desconhecida. Quase ninguém fala dela, mas muitas tropas e alcateias sentem na pele a saída dos jovens. O pior, sempre depois das férias muitos não voltam mais. Crescimento técnico, intelectual, e claro, caminhar com as próprias pernas. É tão bom saber que uma patrulha está junta por anos e podemos confiar que tudo vai dar certo. E depois do passar dos anos, ver aqueles que foram nossos jovens, estarem dentro da comunidade agindo como verdadeiros escoteiros.

       O melhor caminho vencido é aquele em que os rapazes e moças estarão reunidos por um bom tempo, onde sempre estarão à espera da próxima reunião, o próximo acampamento ou a próxima atividade com ansiedade conforme o programa que sugeriram. Um Grupo Escoteiro é uma família. Unida. Fraterna. Onde o respeito mostra o grau de crescimento de cada um. Você faz parte da família. Veja onde é seu lugar e trabalhe para que todos sintam felizes no desenvolvimento de suas tarefas.


       Não existe tarefa fácil. Formar caráter não é fácil. Mas o Movimento Escoteiro através do seu método simples facilita sobremaneira a atingir esse objetivo. E é um orgulho quando podemos ver homens e mulheres que um dia conheceram a maravilhosa Lei Escoteira. E sabemos que atingimos nosso objetivo. Honra e caráter e porque não dizer – Ética e altruísmo! E para isto acontecer precisamos ter programas agradáveis e que satisfação àqueles jovens que procuraram a senda escoteira.

sábado, 13 de setembro de 2014

A lenda do escoteiro fantasma!


A lenda do escoteiro fantasma!

Quem tem medo de monstros e fantasmas, não sabe que o maior monstro e fantasma que existe é o medo.

           Fim do ano, último dia de aula. No Ginásio todos aguardavam o debandar. Eu mesmo esperava ansiosamente. Sabia que minhas notas eram boas e não tinha dúvidas que passaria de ano. Logo ao atravessar o portão vi o Romildo. Sempre fora assim. Romildo era o monitor da patrulha Raposa e eu o seu submonitor. Sempre nos encontrávamos na saída. Ele estava na sétima e eu na sexta série. Tínhamos uma rotina que perdurou por muitos e muitos anos. Romildo era meu principal amigo e irmão escoteiro. Anos depois quando casei lá estava ele como meu padrinho.

             Estávamos aguardando o dia e a hora do acampamento da patrulha. Seria nosso grande acampamento de férias. Quanto tempo preparando! Pela primeira vez só a patrulha iria. Acampar sozinhos era para poucos. Foi difícil. Provar que tínhamos condições para a Corte de Honra não foi fácil. Todos nós já tínhamos boas experiências e com exceção do Mateus, os demais patrulheiros tinham somado mais de cem noites de acampamento. Não queríamos ir aos mesmos lugares. Descobrimos por um irmão do Romildo que em Águas Formosas, pouco abaixo de Aimorés tinha um local maravilhoso. Seria uma viagem e tanto. Mais de três horas de trem e depois mais duas a pé até a Fazenda Grandes Rios. Disseram-nos que seu proprietário morava na capital e com um telegrama para ele conseguiríamos autorização. Outra época. Nada de distrital ou autorização regional. Bastava o de acordo da Corte de Honra e do chefe da tropa. O mundo mudou. Hoje é necessário. Em menos de dois dias veio à resposta. Fizermos questão de abrir o telegrama junto a todos os patrulheiros na casa do Matheus. Os olhinhos, a esperança, a duvida estava presente em cada um de nós.

             - “Prezados escoteiros da Patrulha Raposa, adorei o pedido de vocês. Estão autorizados, quem sabe vou lá fazer uma visita?” - Gritos, sorrisos, abraços. Corremos até a casa do chefe Jessé. A notícia correu de boca em boca. Os Touros, os Panteras, e os Corujas, vieram nos abraçar. Tínhamos um belo programa. Pelo menos achávamos que sim. Seriam cinco dias. Dias que seriam contados por muitos anos, e lido no Livro da Patrulha eternamente. Acreditávamos que a patrulha seria eterna.                  Nosso programa era simples. Montar um bom campo de patrulha, se possível com barraca suspensa, um toldo feito de madeirame trançado com folhas verdes. Uma mesa com bancos onde caberia toda a patrulha, uma cadeira para cada um, e um pórtico. Sim desta vez seria um pórtico de pelo menos cinco metros de altura e que fosse visto de longe para quem nos fosse visitar. Nele colocaríamos uma torre de vigia. Tinha que ter mais de oito metros de altura. Acreditávamos que levaríamos três dias para confeccionar tudo.

                 Claro, Romildo adorava semáforos e faríamos alguns jogos utilizando as transmissões a distancia. Nossa duvida era se lá tinha o cipó “trepadeira” que iríamos precisar. Um dos poucos que se podia dar um volta do salteador, ou um volta de fiel. Teria que ter uma utilização para através de cipós finos, fazer um nó de arnês ou mesmo um volta redonda com cotes. Já tínhamos feito em outros acampamentos amarras quadrada ou diagonal. Nossa experiência era muito boa. Naquela época não existia o sisal de hoje. Na quarta feira, lá estava à patrulha na estação da estrada de ferro. Chefe Jessé também estava lá. Deu as ultimas instruções. Nosso saco de intendência era quase completo. Tínhamos quase de tudo. Confiávamos em Lourival (tico tico) nosso intendente. Ele era bom nisso. O trem expresso chegou no horário. Nossas passagens eram gentilmente cedidas pela Companhia da Estrada de Ferro. Sempre fora assim. Fazíamos o pedido por escrito com pelo menos 20 dias de antecedência.

                  Chegamos por volta de onze da manhã. O próprio Chefe da Estação nos ensinou como chegar à fazenda Grandes Rios. Foi uma caminhada gostosa. Beirando o Rio Doce. Três horas e chegamos. O Sr. Gabriel o gerente nos recebeu bem, pois já tinha sido informado de nossa vinda. Ofereceu um pequeno almoço e claro não dissemos não. Ele mesmo nos acompanhou até o local. Disse que quando jovem o Sr. Mario Montes (o proprietário) acampava sempre lá com os escoteiros da capital onde moravam. Era lindo o lugar. Em primeiro plano um pequeno bosque, com grama baixa e logo acima uma grande mata nativa. Um córrego de águas límpidas e transparentes com pequenas corredeiras passava a menos de oitenta metros. Ele nos disse que se seguíssemos acima uns cem metros encontraríamos uma bela cachoeira. Romildo me olhou e disse – Acho que dá para trazer água ao nosso campo de patrulha. Ri, pois sabia que ele sempre sonhara com isso. Colocamos mãos a obra e nosso campo já dava para passar a noite. Um pequeno fogão tropeiro, e nosso sopão sairia fácil nas mãos de Nildo (fumanchú). Ele para mim era um cozinheiro fora de série.

                   Anoiteceu, jantamos e ficamos em volta de uma pequena fogueira. Logo o sono apareceu e fomos dormir logo. Estávamos cansados da viagem. No segundo dia começamos a desenvolver nossas pioneiras. À tarde já tínhamos a barraca suspensa. Também o toldo mateiro com os bancos e mesa. Resolvemos ir até a cachoeira e olhe linda ela. Um belo remanso. Dava para ver os pequenos peixes que ali habitavam. Um banho, muita alegria e muita diversão e voltamos. A rotina da noite. Fumanchú nos reservou um belo jantar de lingüiças fritas, uma farofa com ovos e um pão para cada um. No terceiro dia uma bela surpresa. O Sr. Mario Montes o proprietário veio nos visitar. Uma pessoa alegre e simpática. Ficou conosco por pouco tempo e prometeu voltar à noite. Acreditem, seria melhor ele não ter voltado. Tínhamos acabado de jantar quando ele chegou. De uniforme! O Sr ainda é chefe escoteiro perguntamos? Não ele respondeu. Hoje não mais. Mas achei que devia vestir o uniforme, pois só assim vocês poderiam ter sorte e conhecer ele. – Ele quem? Perguntamos. O Escoteiro Fantasma! Rimos. Ele também riu e disse-nos para acompanhá-lo.

                   Fomos juntos por uns quinhentos metros acima da cachoeira. No caminho ele contou uma historia fantástica. História que ficou marcada para sempre em nossa memória. Quando jovem, um escoteiro amigo seu, caiu de uma árvore perto da ponte Ravina Seca. Caiu de costas nas pedras do riacho. Morreu na hora. Foi um Deus nos acuda! Os pais inconsoláveis. A tropa passou meses sem se reunir. Acampamentos? Nem pensar. O tempo passou. Muitos esqueceram, eu não, dizia o Sr. Mario. Voltamos aos nossos acampamentos aos poucos. Dois anos depois acampamos neste local. Foram quatro dias. Tínhamos um medo enorme. Sempre nos lembrávamos de Nonato (Nonato era o escoteiro que morreu). No ultimo dia quando da realização do Fogo de Conselho um fogo enorme na mata, levantamos correndo, mas a mata não pegava fogo. Nonato apareceu de forma gigantesca. Seu tamanho descomunal foi diminuindo, estava de uniforme e chapéu escoteiro. Sorria e quando abria a boca parecia que fogo azul saia de lá. Seus olhos eram enormes. Chispas de fogo nos dois.

                    Corremos a mais não poder até a barraca. Até o chefe correu. Era outro que não tinha conhecido Nonato. A noite inteira ninguém arriscou a sair da barraca. No dia seguinte levantamos acampamento as pressas. Depois cresci. Fiquei sabendo de algumas historias. Como sênior voltei aqui varias vezes. Nem sempre Nonato aparecia. Um dia vim à noite até a ponte. Lá estava Nonato. Sentado em uma das pedras embaixo dela como se estivesse pescando. Pelas suas costas saiam chispas de fogo. Um ano depois resolvi conversar com Nonato. Falei com a patrulha e eles me deram a maior força só não iriam comigo. Acampamos um pouco afastado daqui. À noite fui sozinho até lá. Afinal Nonato era meu amigo e quando apareceu para nós não nos fez mal algum. Ele estava sentado no mesmo lugar a pescar com uma vara invisível. Aproximei-me e o chamei. Ele se voltou, desta vez não dava para agüentar. Seu rosto não tinha mais carne, só ossos. Tremi e já ia sair em disparada quando ele falou baixinho. – Não vá! Preciso de um amigo!

                   Contou-me uma historia que não vou repetir para vocês para não impressioná-los. Mas entendi o porquê ele permanecia ali. Só conto a vocês que ele só fica lá quando alguém acampa neste local. Romildo me olhou e não gostei do seu olhar. Olhei para Fumanchú e os demais da patrulha. Não éramos heróis e nem valentes. Não estava gostando desta historia. Mas o seu Mario foi muito simpático e não podíamos negar isso a ele. Chegamos. Ninguem na ponte e nem na pedra pescando. Já íamos voltar quando seu Mario mandou esperar. Lá na curva da estrada estava vindo cantando e assoviando nada mais nada menos que o Nonato. Olhe, quando se aproximou seu rosto estava normal e afável. Soltava algumas faíscas pelos olhos e fumaça em suas orelhas. Assustador mas dava para agüentar. Seu Mario nos apresentou e ele quis saber o nome de cada um na patrulha. Romildo disse. Ele não pegou na mão de ninguém. Nem podia. Suas mãos estavam vermelhas como brasa.

                    Ele sorria. Disse que nos viu chegar e durante todo o tempo ficou ao nosso lado. Só não apareceu, pois materializava o corpo durante a noite e só próximo à ponte da Ravina Seca. Ele amava o escotismo. Infelizmente onde morava não tinha nenhuma tropa para ele entrar. Claro disse, é gente boa, mas tenho saudades. Estávamos todos de olhos arregalados. Todos juntos uns aos outros. Nonato disse para não nos preocuparmos, ele não podia fazer mal a ninguém. Voltamos para o acampamento. Nonato ficou. Seu Mario dizia que ele estava junto, mas não podíamos vê-lo. Tremíamos. Chegamos e seu Mario se despediu e se foi. Era quase meia noite. Corremos para a barraca. Acho que todos como eu custaram a dormir. Um medo incrível mesmo sabendo que o jovem Nonato disse que não precisamos ter medo dele.

                   A patrulha no dia seguinte em reunião decidiu continuar. Voltar? Não era um bom programa. Afinal tínhamos planejado muito. Não deu para fazer tudo que queríamos. Estávamos sobressaltados. À noite então, dormíamos cedo. Escurecia e nós “pimba” na barraca.  No ultimo dia após o arreamento da bandeira, já com todo o campo desmontado avistamos Nonato a uns cem metros. Dizia-nos sem gritar que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus, pois bem cedo nos encontraríamos de novo da Ponte da Ravina Seca. Não disse nada, mas nem pensar. Nunca mais voltaria ali. Pobre Nonato. Não sei se teve oportunidade de ver outros escoteiros acampando lá. Contamos para as outras patrulhas. Riram. Desta vez vocês se superaram, disseram. Nós já imaginávamos isso. Sabíamos que ninguém iria acreditar. Até que os Panteras resolveram ir. E foram. Encontraram Nonato.

                Disseram que fizeram amizade com ele. Agora participava da patrulha e não parecia ser um fantasma. Mas só durante o dia. Quando a noite chegava, seu rosto desfigurava, sua pele caia, chamas vermelhas saiam pelos seus olhos. Era uma visão dos infernos, mas dentro um coração (não sei se tinha) de um grande menino. Outras patrulhas lá se dirigiram. Houve até um acampamento distrital.

                A lenda do escoteiro Fantasma nunca foi esquecida. Quinze anos depois ele desapareceu. Todos que iam a sua procura não o encontraram. Nenhuma explicação. Acredito que Nonato achou seu caminho do Grande Acampamento. Olhe, se você que está lendo e um dia acampar perto de uma ponte de madeira, vá até lá à noite. Quem sabe você vai encontrar Nonato e ficar seu amigo e olhe não se assuste com as chamas de fogo em suas costas e em seus olhos. Se ele soltar fumaça tenha calma. Não é nada demais.

                 Hoje, passado muitos anos eu não esqueço essas historia. Sei que vão dizer que é uma invenção, apenas um conto. Paciência. Não quero provar nada. Não há necessidade. Afinal não fui o único, muitos outros viram Nonato pegando fogo. Aprendi a gostar de Nonato. Gostaria de encontrá-lo novamente. Quem sabe um dia acampando por aí, dou de cara com ele?

E quem quiser que conte outra

Saudade, sombra, fantasma,
coisa que bem não se explica:
algo de nós que alguém leva,
algo de alguém que nos fica.

sábado, 6 de setembro de 2014

O poste.


Uma crônica só para passar o tempo.
O poste.

                            Ele não sabia há quanto tempo estava ali naquela esquina. Podia chover fazer sol e lá estava ele firme sem se mexer. Nunca fez aniversário, pois ninguém nunca lhe deu os parabéns, afinal ele era um poste e sua utilidade era uma só. Segurar os fios do telefone e força elétrica. Mais nada. Mais nada? Ele sabia que ninguém invejava a vida de um poste. Um dia pensou se seria importante, mas achou que não. Notou que do outro lado da rua muitos postes passaram por lá e foram trocados. Uns por velhice outros por atraírem beijos de veículos e teve um deles que um raio o partiu ao meio. Nenhum deles fizeram falta. Quem sabe pensou se um dia muitos como ele se revoltassem poderiam dizer que eles eram uma casta muito importante. Sabia que a molecada e até gente de respeito desfaziam dele. - - Aqui é o fim da fila? Uma jovenzinha perguntou. Ele riu e respondeu: - Não, não, é o começo, só que estou de costa. Pois é, brincavam muito com ele e os cães? Adoravam fazer dele banheiro publico. E olhe que algum “bebum” também achavam que ele era um vaso sanitário.

            E daí? Quem poderia se incomodar com ele? Anda bem que era um poste gozador. – O bebum escorava nele, se entortava todo e em dado momento caia esborrachado no chão. O poste com pena pergunta: - Nossa, caiu? - Não, senti atração pela Terra e decidi abraçá-la. Ele ria afinal chorar para que? Ele era apenas um poste. Ele gostava dos casais de namorados. Eles se esfregavam nele, faziam cosquinhas, tentavam se esconder dos outros para seus beijos e caricias e mesmo ele tentando ajudar um deles falava: - Vamos embora, este poste só serve para chamar os carros que vem em alta velocidade e é duro feito cimento. Era verdade. Ele não sabia por que as batidas eram sempre em cima dele. Quando ouvia um cantar de um pneu fechava os olhos esperando a batida. Ele não entendia por que para cada 80 metros livre os carros preferiam bater no poste. Por quê? Será que era o destino ou eles tinham uma rixa de outros tempos?

              Interessante que pelas estatísticas todos os dias muitos veículos batiam em postes em todas as cidades do Brasil. Afinal o que os veículos tinham contra os postes? E o pior é que quem passava dizia – Veja como ficou o carro! Coitado! Será que morreu alguém? E ninguém dizia – Coitado do poste, levou a pior se quebrando ao meio. Ele um vez ficou anos pensando como fazer para desviar dos carros, mas não tinha jeito, afinal ele era um poste e um poste não anda não se meche. Ele é um poste pombas! Ele sabia que tinha milhões de anos que fora descoberto. Dizem que na Grécia antiga já havia postes para iluminar com lampiões a óleo. Então ele era de família importante e muito mais famoso que os postes dos  longínquos rincões do Brasil. Ele não gostava das eleições. Todos se julgavam no direito de colar cartazes, santinhos e era uma sujeira só. E depois diziam que eles eram civilizados e ele um poste.


                 E as piadas? Detestava. Tá lavando a calçada? – Não, tô regando prá ver se nasce aqui um pé de poste. Ele gostava da rua onde estava. Pouco movimento. Um dia um policial deu um tapa num marginal e o prendeu no poste. Era ele. Não pode fazer isto aqui, ele queria dizer ao policial. Mas ele nem aí. Deixaram o marginal lá por dois dias e depois soltaram. Ele teve de ficar ouvindo o matraquear do marginal que prometeu matar ele, seu pai, sua mãe e todos que tinham seu sangue. Soube que sua estirpe, sua árvore genealógica seria extinta. Não haveria mais postes. Um decreto do governador, agora todos os fios serão subterrâneos. Ele riu. Bem feito. Que os mijões encontrassem outro lugar, que os coladores de cartazes fossem colar no raio que o parta. Quem ia sofrer eram as casas de comércio, os bares e restaurantes. Do freguês comprando e o carro entrando casa adentro. Cadê o poste? O poste sumiu! E o au au? Quero mijar cadê o poste!  O poste já era. Kkkkk.    

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O famigerado apito Escoteiro do Chefe Sonho de Valsa.


Conversa ao pé do fogo.
O famigerado apito Escoteiro do Chefe Sonho de Valsa.

              Era um bom Chefe, bom até demais. Tinha um defeito. E quem não os tem? Bem voltemos ao defeito do Chefe Sonho de Valsa. Ops! Seu nome não era este, mas para evitar colocar um nome e alguém se enquadrar melhor é chamá-lo Sonho de Valsa. Vá lá que é um nome doce e eu gosto muito do bombom. Pombas! Estou fugindo da história. Vamos voltar a ela. O Chefe Sonho de Valsa como disse era um ótimo Chefe, mas gostava de apitar. Como apitava! Era apito daqui, apito dali e no final da reunião a Escoteira estava zonza com tanto apito. Ele se orgulhava do seu apito. – Alemão legítimo! Dizia ele. Tenho também um francês, um italiano e um holandês. Sei que uma vez em uma cidade pequena encontrou um apito, ou melhor, um trinado de um Uirapuru. Era lindo. Ele gostou e comprou.

              Quando na primeira reunião usou o apito do trinado do Uirapuru a tropa assustou. – O que era aquilo? Um apito diferente? Será que Deus ouviu nossas preces? E todos riram de alegria. Mas foi só na abertura. Depois a rotina do apitador Escoteiro voltou. Ele fazia questão de pendurar no seu pescoço dois três ou quatro apitos diferentes. E nos acampamentos? Mama mia! Como apitava. A passarinhada sumia dali de tanto apito estridente. Muitos chefes comentaram com ele do apito, mas ele não dava ouvidos. Foi Lomanto que um dia lhe disse: – Chefe, porque não vai ser juiz de futebol? Lá sim você vai se esbaldar. Se possível de jogos de várzea onde os pizãos os empurrões, os chutes e os palavrões são frequentes. E você vai apitar como nunca. Chefe Sonho de Valsa olhou enviesado para Lomanto e nunca mais lhe dirigiu a palavra. Foi então que um fato pitoresco aconteceu. Foi no Acampamento em Lobo Branco. Já havia acampado lá, mas aprendeu uma lição que nunca mais esqueceu.

                 Era umas dez horas quando o caminhão cheio de Escoteiros chegou a Campina do Arroio e para surpresa viram que lá estava acampado uma tropa Escoteira. O Chefe Sonho de Valsa não conhecia. Tudo bem pensou, aqui cabe todo mundo. Procurou o Chefe da outra tropa e se apresentou. Um cara super simpático, mas ele logo notou que não tinha apito. Se não tinha não era um bom Chefe. Dizem que o apito faz o Chefe. Verdade? Conversaram pouco tempo e logo seus apitos se fizeram ouvir. Apito de monitores, apito de intendência, apito de cozinheiros, apito dos sub monitores, apito para formatura e apito para a bandeira. Exigia que por apito a cada tarefa das patrulhas o monitores avisassem que a tarefa tinha terminado. Sua tropa tudo bem ela estava acostumada, mas a outra tropa se assustou. O Chefe Long Jonny resolveu interferir. Educadamente. Viu que o semblante do Chefe Sonho de Valsa franzia. – Bem, pensou que seja, vou abrir o jogo, o apito do Chefe está entornando o caldo!

                 Chefe! O senhor tem uma bela coleção de apitos no pescoço, disse. – Sonho de Valsa riu a toa. Quantos os senhor tem? Eu? Não tenho nenhum. Uma vez comprei um Chifre do Kudu e ainda o tenho, mas quase não uso. – Não usa? E como chama os meninos? Por sinal Chefe, por sinal. E quando necessário por bandeirola. Bandeirola? Como? Perguntou Sonho de Valsa. – Simples, olhe ali naquele pequeno mastro, tenho várias bandeirolas pequenas. Cada uma para solicitação. A azul para monitores, a verde para chamada geral, a marrom para os subs e assim vai. Subo a bandeira e eles vem correndo. – Sei não disse o Chefe Sonho de Valsa, meu apito se ouve longe. – Pode ser disse o Chefe Long Jonny, mas será que os pássaros não se incomodam? Os animais reclamam? E como fazer para estarmos de bem com a natureza com o trinar dos apitos?

                  O Chefe Sonho de Valsa deu como encerrado a conversa. Já pensou? Disse ele para si, bandeirolas para chamar? Melhor chamar com a fumaça de um fogo. E riu baixinho. Naquela noite o Chefe Sonho de Valsa foi dormir sorrindo depois de apitar feito um louco em todo tempo do acampamento. Dormiu e dormiu um sonho que nunca mais queria sonhar como ele sonhou. Estava voando, isto mesmo voando e viu a terra dos pássaros. Uma força o levava para baixo. Milhões de pássaros o esperavam. Um círculo se fez. Um enorme gavião com um apito apitou no ouvido dele e logo em seguida veio o Papagaio, a Coruja, a Águia e assim centenas de pássaros apitaram no seu ouvido sem parar. Ele gritava para parar e não adiantava. Soltaram-no e ele correu pelas nuvens e foi agarrado por um trovão que o levou a terra dos animais da floresta. Mesma coisa. O Quati apitou, a Onça apitou. Os macacos apitaram. Ele gritava e chorava e o soltaram. Acordou suado. Ainda com os apitos no ouvido.

                  Abriu à porta da Barraca, um silêncio gostoso da floresta. Um trinar cantante de pássaros. Ouviu ao longe a cascata de aguas límpidas, ouviu o vento passar. Que gostoso pensou. O Chefe Long Jonny estava certo. O apito não faz parte da natureza. Ele jurou a si mesmo que nunca mais usaria um a não ser para um pedido de socorro ou alguma emergência. E foi então que a tropa do Chefe Sonho de Valsa sentiu a paz no coração. Quando viram que ele não apitava mais, quando só usava as bandeiras ou os sinais com as mãos sentiram que agora sim tinham um Chefe de verdade. E sabem? Aquela tropa enquanto o Chefe Sonho de Valsa estava lá tinha como diz o lobo os olhos e os ouvidos abertos. E assim viveram felizes para sempre.


           “Aproveite o seu momento de descanso e imagine que esta a passear numa floresta, que esta a sentir o cheiro das flores, esta ouvir chilrear dos pássaros e o murmúrio do riacho. É a força e o poder da natureza, a serenidade, o relaxamento. Ao ouvir os sons do mar pode realizar as massagens de relaxamento, meditar, relaxar, descansar e até adormecer”. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A lenda de Chico Mortalha – O malvado.


Lendas escoteiras.
A lenda de Chico Mortalha – O malvado.

        Todos os habitantes de Floradas na Serra conheciam a lenda. Claro, lenda é lenda e serve para contar, não para acreditar. Mas a criançada da cidade acreditava. Mamães, professoras, pais, vovós quando queriam chamar atenção por uma simples travessura lá estava Chico Mortalha presente para amedrontar. Se foi verdade ou não isto não posso dizer. Quem me contou foi o Padre Josenilton. Chico Mortalha era um pistoleiro famoso. Um matador. Matava tudo que encontrava. Velhos, moços, jovens, crianças, animais. Matava tudo que aparecesse em sua frente. Seu último crime foi à morte do Bispo Marcelino. Gente boa, boníssima. Mas o prefeito encrencou com ele. Pagou a Chico Mortalha para dar um sumiço no bispo. Dito e feito. O Bispo sumiu! Ninguém nunca mais o viu.

         Desconfiaram que fosse crime encomendado. Chamaram o Delegado Paredes da capital. Não provou, mas disse que foi Chico Mortalha. O povo se revoltou. Foi na casa dele. Levaram-no para a Lagoa das Piranhas. Tiraram a roupa dele e amarraram em todo seu corpo nacos de coração de boi. As piranhas adoram. Amarraram ele em um galho que dava em cima da lagoa. Iam descendo aos poucos seu corpo. As piranhas devoravam tudo que mergulhava na água. Primeiro suas pernas, depois seu corpo, só sobrou à cabeça de Chico Mortalha. Dizem que não deu um gemido. Por fim cortaram a corda e Chico sumiu nas aguas profundas da lagoa. Contava-se que uma vez por ano, na data de sua morte, ele aparecia na lagoa, em pé, sem afundar e dava gemidos imensos que nenhum peixe, nenhum animal ficava por perto.

          Há mais de trinta anos existia um belo Grupo Escoteiro em Floradas na Serra. Quase todos os homens da cidade haviam passado pelas suas fileiras. Uma grande Alcatéia, uma ótima tropa, três Patrulha seniores e um Clã que precisa definir quantos poderiam participar, pois em suas reuniões sempre apareciam mais de cinquenta pioneiros. Seria um tema para o próximo Conselho de Chefes do Grupo. Chiquinho Mortalha era Sênior. Desculpe. Risos. Seu nome era Lorenildo Simplício das Mercês. Não gostava do nome. Nunca gostou. Quando foi lobinho colocaram nele este apelido. Não se incomodou. Ficou para sempre. Talvez por ficar sempre de cara amarrada. Não sorria. Mas todos gostavam dele. Tinha uma força descomunal para sua idade. Não era alto, mas levantava toras, pesos enormes com facilidade. Nos acampamentos o pau para toda obra. Era bem quisto na Patrulha. Desde quando Escoteiro. Conseguiu a Primeira Classe. Pretendia ser Escoteiro da Pátria.

          Em sua Patrulha todos os temiam. Não pela sua força, mas pela sua astúcia. Dizia que quando desse na telha ia enfrentar este tal de Chico Mortalha lá na lagoa na data que costumava aparecer. Ninguém acreditava. Dito e feito. Em onze de agosto, data da morte do tal Chico Mortalha lá foi ele rumo à lagoa. Sozinho é claro. Levou sua faca, sua machadinha e uma corda de dez metros. Lá chegando subiu no pé de uma Copaíba enorme. Se amarrou nos galhos e esperou. Não tinha pressa. Que venha o Chico Mortalha. Estava na hora de enfrentá-lo. Sete horas da noite, nove, dez, onze, meia noite. Nada do Chico. Era fanfarronice. Ela assim pensava. Uma hora cochilou. Dormiu. Não caiu, pois estava amarrado. Mas alguém o desamarrou. Ele caiu do alto dentro da lagoa. Afundou. Abriu os olhos e viu com horror o Chico Mortalha. Só a caveira, pois as piranhas não deixaram nada. Chico sorria para Chiquinho. Não teve medo. Pegou sua faca e disse que ele era Escoteiro. “O Escoteiro não tem medo de nada” A caveira começou a rir.

         Gargalhadas enormes. Chiquinho isto é Lorenildo precisa de ar. Subiu até a borda da lagoa, respirou e mergulhou de novo. Danado de Sênior. Não tinha medo mesmo. A caveira o pegou pelo ombro, o levou até o pé da árvore fora da lagoa. O abraçou e disse a ele que era bom conhecer um Escoteiro. Poderia ter sido um, pois quem sabe não seria o que tinha sido. Ficaram amigos. Conversaram toda a madrugada. Chico Mortalha contou muito da sua vida. De seu grande amor por Nininha, mas nunca disse a ela. Morrera de tuberculose e solteira. Hoje ela faz companhia a ele no fundo da lagoa.

         O dia amanheceu. Lorenildo voltou para sua casa. Seus pais preocupados. Todos os escoteiros a procurada dele. Resolveu não contar nada. Não devia. Agora era amigo de Chico Mortalha o Malvado. Tinha prometido a ele que voltaria no próximo aniversário e iria conhecer Nininha. O tempo passou. Lorenildo casou. Contou para seus filhos, mas eles riam e achavam que seu pai era um bom contador de histórias.

        Todos os anos, durante toda a sua vida Lorenildo voltava à lagoa. Fizera um amigo, ou melhor, amigos. Chico e Nininha. Sentava a beira da Copaíba e Chico Mortalha aparecia com Nininha e eles se abraçavam. Ficavam ali conversando por toda a madrugada. A cidade sabia, mas tinha medo. O Grupo Escoteiro não comentava. A Patrulha entendia. Amigos são amigos. Durante toda sua vida agora como Chefe Escoteiro não deixava de visitar Chico Mortalha e Nininha na Lagoa das Piranhas. Amigos para sempre. Diferente, pois Chiquinho era um Escoteiro do bem. 

           E como dizem por aí, boi não é vaca, feijão não é arroz e quem quiser que conte dois! E como dizia minha avó, “Pedro, nem tê-lo, nem vê-lo, nem querê-lo, nem a porta da casa consegui-lo... mas sempre é bom na casa havê-lo”. Risos.

E quem quiser que conte outra!

domingo, 24 de agosto de 2014

Memórias de Risadinha. Ele é um bom companheiro, ele é um bom Escoteiro!


Lendas Escoteiras.
Memórias de Risadinha. Ele é um bom companheiro, ele é um bom Escoteiro!
             
                      Risadinha. Nunca na minha vida conheci um Escoteiro como ele. Quando o conheci ele tinha entrado direto para a tropa com onze anos. Olhar o rosto, a maneira como andava já bastava para dar boas risadas. E o melhor, ele nunca se incomodou com isto. A principio o Chefe Laercio da tropa não entendeu bem aquele menino desengonçado, risonho e que parecia não levar nada a sério. Basta dizer que na primeira reunião que ele foi apresentado a tropa ele olhou a todos, e perguntou: - Tropa, porque a roda do trem é de ferro e não de borracha? – A Tropa não entendeu nada. Seria uma nova maneira de apresentar? Mas não, risadinha logo emendou – Porque se fosse de borracha apagaria a linha! E Deitou no chão morrendo de rir. Era assim o Risadinha. Muitos riam mais do estilo dele que das piadas.

                      Claro que não era e nunca foi um mau Escoteiro. Em pouco tempo já tinha seu cordão verde e amarelo e só não conseguiu o Lis de Ouro porque o Assistente Escoteiro do Distrito vetou. Um dia em uma reunião distrital de escoteiros ele adentrou o círculo e com seu estilo característico gritou alto! – Turma! O que a caixa de leite falou para o saquinho? – Todos calados. Vem prá Caixa você também. E deitava, e rolava de rir. O Assistente, jovem ainda e que não tinha senso de humor não gostou daquilo. Não aprovou seu processo enquanto ele não mudasse. Mudar como? Era sua maneira, seu estilo. A tropa adorava, os seniores eram os que mais davam gargalhadas.

                      De vez em quando Risadinha extrapolava. No desfile do Sete de Setembro estava programado um alto em frente ao palanque para uma saudação as autoridades. Assim foi feito. O Chefe Laércio gritou! Alto! Esquerda volver! Nesta hora Risadinha deu dois passos a frente e gritou: Doutor Prefeito! Doutor Prefeito! O Prefeito que não era Doutor falou – O que foi meu jovem? Porque a mulher não pode ser eletricista? – Por quê? Perguntou o prefeito. - Porque ela demora nova meses para dar a luz! E deitou no chão de rir. O palanque inteiro ria a valer. Foi um sucesso, mas o Comissário do Distrito Malquiedes achou um absurdo. Mandou um ofício para o Grupo Escoteiro pedindo sua saída. Claro que não foi atendido e isto não foi bom para o Grupo Escoteiro. Risadinha não parava. – Mamãe, Mamãe! Na escola me chamaram de mentiroso! Cale-se moleque, você ainda nem foi à escola! E Risadinha não parava. Era na sua Patrulha, era na tropa, era em casa era na escola.

                    Ficou conhecido. A cidade em peso adorava Risadinha. Quando ele passava sempre tinha alguém que gritava: - Risadinha! Uma piada. Ele nunca negou. Seu estoque era infinito – O condenado a morte esperava a hora da execução, quando chegou o padre: - Meu filho vim trazer a palavra de Deus para você. – Perda de tempo seu padre. Daqui a pouco vou falar com Ele pessoalmente. Algum recado? E lá estava ele deitado no chão rindo. Tudo piorou no Grupo Escoteiro quando O Chefe Laercio foi transferido pela sua empresa para outra cidade. Não tinha assistentes e o Diretor Técnico com muito custo convenceu um antigo Escoteiro a voltar. Minomatas era um sujeito triste. Revoltado com a vida. Aceitou mas logo viu que ali não era para ele. Ao ser apresentado Risadinha deu um passo à frente. A tropa já sabia. Piada na certa. – Chefão! O garoto que mora em meu bairro apanhou da vizinha. A mãe furiosa foi tomar satisfação. Porque bateu no meu filho? – Ele foi mal educado. Me chamou de gorda. - E a senhora acha que vai emagrecer batendo nele? Foi à conta. Chefe Minomatas pediu sua saída.

                     Risadinha viu que a tropa ia ser prejudicada. Resolveu sair. Um inferno isto sim ele provocou para o Grupo Escoteiro. Os meninos iam à reunião sentavam em um canto e não obedeciam a chamada. Um verdadeiro Motim. Depois os sêniores aderiram e finalmente os lobinhos. O que fazer? Reunião e reuniões aconteceram. Nada. Veio o Distrital e sua corte. Nada. O assunto foi levado a regional. Nada. A nacional riu de tudo e também não fez nada. Risadinha foi convidado a voltar. Chefe Minomatas saiu do grupo. Um Pioneiro de nome Polenta assumiu. Garotão. Alegre, divertido. A tropa adorou. – Chefe, o louco estava com um balde de água e uma vara de pescar, o psiquiatra perguntou a ele – O que você está pescando? Idiotas, respondeu. Quantos você já pegou? Três, é claro com o Senhor!

                    O tempo passou. Soube que Risadinha conseguiu seu Escoteiro da Pátria. Sei também que cresceu e ficou famoso. O chamavam o maior piadista de todos os tempos. Começou no SBT, depois foi para a Record e hoje tem um programa só dele na Rede Globo. – Mamãe, Mamãe, me leva no circo? – Se querem ver você que venham aqui em casa! Risadinha. O mais divertido Escoteiro que conheci. A vida dizia ele é para ser vivida com alegria. Para que chorar? Adianta? Acho que ele tinha razão. Não foi Baden Powell quem disse que o Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades?


- O Menino vem correndo e diz à mãe: - Mãe, você é uma mentirosa! - Mais por que você diz isso meu filho? - Você disse que meu irmãozinho era um anjo! Eu joguei ele pela janela e ele não voou…

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Laninho escoteiro e a Festa no Céu.


Lendas Escoteiras
Laninho escoteiro e a Festa no Céu.

                Nada como ser um Escoteiro sonhador. Deixar a mente voar e ser levada ao sabor dos ventos, sentir a brisa da manhã no rosto e sorrir existe coisa melhor? Participar de lindas histórias onde pode ser herói, onde pode voar conversar com os bichos as aves os peixes e sentir seu coração bater de alegria em todos os momentos? Pois assim era Laninho. Puro nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações. Na Patrulha o chamavam de “Voador”, estava sempre sorrindo e olhando o céu, os pássaros que voavam perto, os insetos e jurou que um dia fez amizade com um Quati cinzento. Quem duvidaria?

                 A tropa estava acampada no Sitio do Beija Flor. Um lindo local, uma cascata gostosa, muitas arvores frondosas, e bambus. Como tinha bambu. As Patrulhas adoravam. Laninho era dos Tigres Brancos. Um ano lá com eles. Promessado e tinha a simpatia de todo mundo. Ao seu modo colaborava com a Patrulha, mas era franzino e todos achavam que ele só vivia “Voando” e não contavam muito com ele. Naquela tarde após o banho todos foram ajudar o cozinheiro com a sopa do jantar. Laninho como sempre sentou embaixo de uma aroeira frondosa e olhava em seus galhos se tinha algum pássaro para conversar. Percebeu ao seu lado um Sapo Amarelo. Não o conhecia. O Sapo Amarelo o olhou e disse – Você pode me ajudar? – Ajudar como disse Laninho – simples, vai ter uma festa no céu. Convidaram todas as aves e eu não posso ir. Só quem pode voar. Como me disseram que você é um Escoteiro Voador, quem sabe me leva lá?

                  Laninho sorriu. Tinha lido um conto da Festa no Céu. Nele foi um urubu quem levou o sapo uma tartaruga e um esquilo que se esconderam em sua viola, pois o Urubu era um violeiro. Depois no céu ele os descobriu lá escondido em sua viola e jogou a todos nuvem abaixo. Quem levou a pior foi à tartaruga. Espatifou-se no chão. Mas Laninho ficou pensando se não podia levar o Sapo. Afinal ele sempre sonhou com uma festa no céu. Porque não ir? – Feche os olhos Senhor Sapo. Vamos para a festa você e eu! Só abra quando eu mandar. Mas o sapo não obedeceu. Abriu os olhos quando estavam sobre uma nuvem e ambos despencaram no espaço. Tiveram sorte. Caíram em um riacho de aguas límpidas. O sapo mergulhou e voltou à tona xingando Laninho. – Mas eu tentei te ajudar – falou. Nada disto. Você me soltou no espaço. Laninho chorou muito e o sapo ficou triste também. Nesta hora o Urubu Rei viu aquela choradeira e ficou com dó do sapo. – Deixa que eu levo você em minha viola.

                  Bem como o sapo foi não preciso contar. Todos conhecem a história da Festa no Céu. Laninho despencou de um galho e caiu com tudo no chão. Não machucou, mas quando abriu os olhos viu toda sua Patrulha rindo. – Ele também riu. Contou para eles que estava chegando ao céu e o sapo o jogou no espaço. Eles iam a uma festa no céu. – Todos riram a valer. - Esse Laninho, falou o Monitor. O Sub Monitor rindo falou – Mas Laninho, só você e o sapo? E a tartaruga? E o Esquilo? Eles não foram também? – Laninho riu e disse – Melhor perguntar a eles, estão atrás de vocês! – A Patrulha olhou espantada e viu um Esquilo e uma Tartaruga rolando pelo chão e dando enormes gargalhadas!


                 Se Laninho e os bichos foram com ele a festa no céu eu não sei, mas sei que até hoje ele conta como o Urubu tocava sua viola e crocitava, fazendo coro com a Araponga e o Papagaio. Não faltando a Gralha o Cisne, a Pomba e o sabiá que gorjeava como nunca. E assim nunca mais a Patrulha de Laninho duvidou de suas histórias e todos os fogos de Conselho deixavam-no falar, cantar e contar seus contos fantásticos. E como digo sempre, toda a história tem um fundo de verdade, mas histórias são histórias. Quem quiser mudar que conte outra. Que Laninho viveu feliz para sempre eu sabia, pois o Escoteiro é Alegre e sempre sorri nas dificuldades!