Uma deliciosa conversa ao pé do fogo!

Amo as estrela, pois mesmo tão distantes nunca perdem seu brilho, espero um dia me juntar a elas, e estar presente a cada anoitecer alegrando o olhar daqueles que amo

sábado, 7 de setembro de 2013

As fantásticas “lambanças” do Escoteiro Kiabo. (com k mesmo, risos).

Lembranças da meia noite.
As fantásticas “lambanças” do Escoteiro Kiabo. (com k mesmo, risos).



                 Hoje tirei o dia para rir. Costumo fazer isto. Faz bem. Lembrei-me de tantas coisas divertidas do passado que esqueci as tristes. Bom isto. Que elas vão para outras plagas, bem longe onde os bons ventos sopram e as diluem no ar. Não dizem que rir é o melhor remédio? Pois acredito nisto e lembrar-me do Kiabo é dar risadas. Não que ele fosse um humorista. Nada disto. Que ele aprontava umas e outras lambanças era fato conhecido. Não tenho certeza, mas foi por volta de 1946 que sua família mudou para perto da minha. Ainda não tinha entrado para os lobinhos. Nós morávamos do outro lado da “linha” (estrada de ferro) onde era mais barato o aluguel. Quando vi descarregarem a mudança um menino de cabelos incrivelmente loiros, olhos azuis, magro como um palito desceu do caminhão (um velho Ford de guerra), me olhou e disse: Meu Deus, como você é feio! Fui obrigado a rir. Não era assim tão feio. Estava com seis anos e ele também.

Ficamos amigos, pois esta é uma idade que todo mundo é amigo. Ele não era tão bom no jogo das panelas da bola de gude, mas era um craque no finquinho. Seu pai tinha feito para ele uma Manivela enorme, e mesmo com aquela idade conseguia empinar um papagaio nas alturas. Aquilo sim era bom. Nas alturas, quanto mais alto maior a vitória de empinar. Hoje todos só querem cortar a linha do outro. Malvadeza pura! Comecei a ver a verdadeira face do Kiabo com o passar do tempo. Gostava de fazer maldades. Não era tão mau não, mas isto o divertia. Só ele, pois não se preocupava com os outros pensassem dele. Amarrar gatos uns nos outros era comum. Uma vez colocou uma bombinha amarrada com um barbante em uma Pomba, acendeu e soltou a pomba no ar. Amarrar cachorras no cio em poste e em outro poste amarrar carne vermelha era sua diversão favorita. A cachorrada não sabia se iam na carne ou na cachorra! Risos.

Quando entrei para os lobinhos já não éramos tão amigos. Ele nunca se interessou. Disse-me que quando fizesse onze entraria para os escoteiros. Lobinhos para ele era “pá de vaca” como chamavam os meninos molezas na época. O tempo passou. Kiabo aprontando. Um sábado lá estava ele com seu pai no Grupo Escoteiro. O Chefe da tropa apresentou Kiabo a todo mundo. Foi para a Patrulha Morcego. Eu não nutria muita simpatia pelos morcegos. O Monitor o Miraldino era metido à beça. Achava que só ele sabia, sua Patrulha era a tal e mesmo sendo advertido diversas vezes pela chefia ele não melhorava. Até que nos seniores ficamos grandes amigos. Mas isto é outra história. As lambanças do Kiabo tiraram Miraldino do sério. No acampamento trocou o sal pelo açúcar. Colocou uma lesma no óleo de cozinha. Fritou minhocas junto com as linguiças.  Montou uma cadeira de campo e o primeiro que sentou levou o maior tombo e ainda caiu um jarro d’água em sua cabeça (colocado em forma de armadilha em uma árvore).

Kiabo aprontou e muito.  Para contar teria que escrever muitas folhas e aqui não dá. Fica para outra ocasião. Mas não posso deixar de contar a sua maior proeza. A cidade inteira parou e quase um desastre enorme poderia ter acontecido.  Sem ninguém saber Kiabo preparou quinze bandeirolas tipo pirâmide feitas de papel celofane vermelho, amarrou em 15 varas de bambus de um metro e meio bem esticadas com varetas. Foi para a Pastoril (um bairro afastado da cidade) e lá fincou cada vara com uma bandeirola ao lado da linha de trem, a cada vinte passos. Na ultima lá estava ele. Uniformizado, caqui, chapelão, um par de bandeirolas de semáforas a mão. A composição apareceu na curva. Quatro locomotivas a diesel. Mais de duzentos vagões carregados de minério de ferro vindo de Itabira. Talvez a sessenta por hora ou mais. Uma cobra gigantesca serpenteando o Rio Doce que visto de longe seria um espetáculo inesquecível. O maquinista buzinou assustado ao ver aquelas bandeirolas vermelhas. Mais a frente o Kiabo fazendo sinais de semáforas transmitindo o S.O.S. e pulando!

Um susto enorme tomou conta do maquinista. Gritou para seu auxiliar. Ambos acionaram os freios das quatro locomotivas e de vários vagões. Um barulho infernal que foi ouvido por toda a cidade. Um trem assim não para rápido. Leva pelo menos um quilometro para parar ou mais. Kiabo se deliciava, ria e pulava. Consegui dizia ele (isto me contou mais tarde). Ele fazia suas lambanças e não contava a ninguém. Quando o trem parou Kiabo não correu. Ficou no lugar. Centenas da cidade acorreram. Gente da alta cúpula da estrada de ferro chegaram esbaforidos. Pensavam ter havido um desastre. O maquinista veio correndo e abraçando Kiabo. Um herói meu garoto, viva você. Depois ficamos sabendo. Alguém abriu uma porteira e uma centena de vacas ficaram na linha algumas deitadas, e o trem parou a menos de cinquenta metros delas.

A cidade toda ovacionou Kiabo. O Chefe da tropa e a Patrulha desconfiados. Quem abriu a porteira? Logo ali na estrada de ferro? Perguntas vazias. Kiabo foi festejado no colégio. A cidade toda batia palmas quando ele passava. Uns meses depois seu pai foi transferido para Itabira. Era encarregado de manutenção da estrada de ferro. Kiabo foi junto. Perguntei a ele quem poderia ter aberto a porteira. Ele ria. Não falou nada. Nunca falou. Sumiu o Kiabo. Boas lembranças de suas lambanças ficaram em minha mente. Nunca mais ouvi falar dele, mas com certeza a cidade ficou mais quieta, mais pacata, e ninguém tinha medo de alguma armadilha pelo caminho depois que o Kiabo foi embora. Graças a Deus! 


Boa noite meus amigos e minhas amigas, um lindo sono cheio de sonhos lindos!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Manias e quem não tem?



Lembranças da meia noite.
Manias e quem não tem?

Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você
Mania é coisa que a gente tem, mas não sabe por que.
Mania de querer bem, às vezes de falar mal.
Mania de não deitar sem antes ler o jornal
De só entrar no chuveiro cantando a mesma canção.

        Eu gosto desta canção. Linda. Claro é cantada por Dolores Duran grande cantora. Mas tirei o dia para falar de manias. Quem não as tem? Hoje resolvi mudar. Manias e rotinas deixar de lado. Esconder debaixo da cama. Comecei por ficar mais tarde sem me levantar. Que dificuldade! Cinco seis sete horas e não aguentava mais. Levantei. Lavar rosto, escova de dente não tem como fugir. Depois Inalar, e café. Sempre as seis hoje as oito. E agora? Pé na estrada. Meus oitocentos metros que faço em quase quarenta minutos. Devagar se vai ao longe. Na varanda abri um livro. Já o li não sei quantas vezes. Seara Vermelha de Jorge Amado. Li e não prestei atenção. Hoje seis páginas. Parei. Pela varanda olhei para a Rodovia Castelo Branco, carros parados. Sempre assim esta hora.

        Onze horas, escolher entre laranjas ou mexericas? Que duvida cruel! Resolvido. Laranjas. Duas. Agora ligar o PC e ver os e-mails, entrar na internet. Rotina e rotina, todo dia isto. Afinal não ia mudar? Pensei um dia em ficar uma semana sem ligar o PC. Facebook? Que Mania! Vou ficar longe! Consegui ficar mais de vinte minutos. Não deu para ficar mais. Um dia largo tudo isto e boto o pé na estrada. Quem sabe quando chegar ao fim dela não existirá esta rotina que hoje me dá ordens e não consigo ficar sem obedecer? Hora do almoço. Hora da soneca, hora de escrever. Escrever o que? Sem ideias. Porque não falar de escotismo? Risos. Não é um bom tema? Mas falar o que?

         Pensei em falar sobre o poder no Escotismo. O poder que tem uma atração incrível. Disseram-me que isto acontece com todos. Dizem ser o poder do nada. Não existem inocentes. Todos almejam o poder. Será mesmo? Mas o duro é que quando entram não querem sair mais. E fazem tudo para manter de fora aqueles que querem entrar. Que rotina meu Deus! Preciso deixar de falar de escotismo. Em minha vida criei inúmeras inimizades com isto. Deveria ter sido submisso como muitos dos meus amigos foram. Hoje a maioria deles estão abarrotados de medalhas. Idi Amim Dada se ainda estivesse no poder ficaria morto de inveja. Risos. Caramba! Mas não ia eu mudar hoje? Sair da rotina? Que manias eu tenho! Será que não tenho outro tema que não escotismo? Mensalão? Nem pensar. Corinthians? Deus me livre. Sou um cruzeirense calmo. Não brigo. Afinal eles ganham muito e eu não ganho nada!

          A tarde se foi. Ainda um sol raquítico no horizonte. Na Castelo Branco o trânsito flui melhor. Outra inalação. Uma hora. Não sei se gosto disto. Mas fazer o que? Mania ou rotina? Rotina. Esta não dá para mudar. Um ar que não vem obriga a maquininha a jogar em minhas narinas remédios da vida. Eureka! Uma grande ideia! Quem sabe lá não tem poder? Ou tem? Acho que não. Se temos o livro arbítrio aqui teremos lá também. Mas seria bom se os lá de cima procurassem entender os cá de baixo. Pelo menos ouvir. Como é bom ouvir o próximo. Ver o que ele tem a dizer. Em você! Isto mesmo você que é da turma dos Catorze do Forte, que manda e desmanda, ouça um pouco. De norte a sul. Dizem que faz bem ao fígado.

         Preciso escrever uma história, um artigo. Sem ideias. Preciso escrever uns contos. Sem ideias. Preciso escrever, preciso... Rotina, manias, até quando?



Manias
Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você
Mania é coisa que a gente tem, mas não sabe por que.
Mania de querer bem, às vezes de falar mal.
Mania de não deitar sem antes ler o jornal
De só entrar no chuveiro cantando a mesma canção.
De só pedir o cinzeiro depois da cinza no chão
Eu tenho várias manias, delas não faço segredo.
Quem pode ver tinta fresca sem logo passar o dedo
De contar sempre aumentado tudo o que diz ou que fez
De guardar fósforo usado dentro da caixa outra vez
Mania é coisa que a gente tem, mas não saber por quê.
Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você
...uma é gostar de você.


Boa noite meus amigos e minhas amigas. Um lindo desfile para aqueles que irão nos representar e para os outros um lindo sábado dedicado à pátria.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sobre Baden Powell

Lembranças da meia noite.
 Sobre Baden Powell



Baden Powell com seus múltiplos talentos e carismática personalidade, até a sua morte em 1941, dominou o Escotismo pela força absoluta de seu caráter. Indiscutivelmente, desempenhou um papel singular, não apenas como Fundador do Movimento, mas também como seu líder e inspirador. A isto se pode acrescentar o seu profundo entendimento dos problemas, necessidades, e aspirações do jovem e de sua capacidade para tornar os sonhos em realidade. Um homem de visão, prático e pragmático, muito do crédito lhe pode ser atribuído, pela estabilidade e dinamismo do Movimento Escoteiro em âmbito mundial, bem como pelos fundamentos sobre os quais se baseava.


Boa noite meus amigos e minhas amigas. Durmam bem e uma ótima quarta feira.

sábado, 31 de agosto de 2013

Você sabe fazer previsão de tempo no acampamento?

Lembranças da meia noite.
Você sabe fazer previsão de tempo no acampamento?



Eu conheci algumas. Do livro do Chefe Floriano de Paula “Para ser Escoteiro”. Depois a UEB não vendeu mais. Apareceram outros. Descobri estas, e acho que ajuda muito para ver a previsão de tempo no acampamento. Afinal escoteiro que é Escoteiro não se aperta.

Vermelho nascente que pronto descora, tempo de chuva que está prá demora.
Vermelha alvorada vem mal-encarada.
Vento contra a corrente levanta mar imediatamente
Vento sudoeste mansinho e panga é de tremer dele, quando se zanga.
Volta direita, vem satisfeita, volta de cão traz furacão.
Sol nascente desfigurado, no Inverno, frio, no Verão, molhado.
Sol que nasce em nuvens sentado, não vás ao mar fica deitado.
Sol posto ledo, com claro ao norte, andar sem medo que estás com sorte.
Se grandes, correm desmanteladas, mau tempo, velas rizadas.
Se à tarde vem, é prá teu bem.
Se um trovão seco no céu reboa, temporal violento nos apregoa.
Se ao vale a névoa baixar, vai para o mar, mas se pelos montes se atrasa, fica em casa.
Se entra por terra a gaivota, é que o temporal a enxota.
Se vem chuva e depois vento, põe-te em guarda e toma tento.
Se tens vento e depois água, deixa andar que não faz mágoa.
Sem nuvens o céu e estrelas sem brilho, verás que a tormenta te põe num sarilho.
Se um dia Deus quiser, até com norte pode chover.
Céu pedrento, chuva ou vento, não tem assento.
Chuva miudinha como farinha dá vento do norte, mas não muito forte.
Com céu azul carregado, teremos o barco em vento afogado.
Céu pedrento, chuva ou vento, não tem assento.
Castelos de nuvens sem nuvens por cima são chuvadas certas mesmo sem rimas.
Céu limpo e lua no horizonte, de lá te virá o vento.
Chuva miudinha como farinha dá vento do norte, mas não muito forte.
Está a chover e fazer sol e a raposa a encher o fole.
Depois de chuva, nevoeiro, tens bom tempo marinheiro.
Lua nova trovejada 30 dias é molhada.
Lua à tardinha com seu anel, dá chuva à noite ou vento a granel.
Lua com halo de grande aparato é molha certa prá gente de quarto.
Lua com circo,  água traz no bico.
Lua nova trovejada, trinta dias é molhada.
Lua nova trovejada, oito dias é molhada. Se ainda continua, é molhada toda a lua.
Lua empinada, maré repontada.
Lua deitada marinheiro em pé.
Limpo horizonte que relampeja dia sereno, calma sobeja.
Lua nova de Agosto carregou, lua nova de Outubro trovejou.
Lua Nova, Lua Cheia preia Mar às duas e meia.
Lua fora, lua posta  quarto de maré na costa.
Nuvens aos pares, paradas, cor de cobre, é temporal que se descobre.
Nuvem comprida que se desfia sinal de grande ventania.
Nuvens finas, sem ligação, bom tempo, brisas de feição.
Nuvens espessas e acumuladas, ventanias certas e continuadas.
Nuvens pequenas, altas e escuras são chuvas certas e seguras.
Nordeste molhado, não te dê cuidado.


Boa noite meus amigos, durmam bem. Que os anjos cantem canções lindas nos seus sonhos.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Um tributo aos amigos que partiram.

Lembranças da meia noite.
Um tributo aos amigos que partiram.



Tem dias que fico pensando, pensando e quem não fica? Risos. Mas só pensando em um assunto? Claro que não. São vários. Sempre penso em escotismo, em escoteiros, em lobinhos, em seniores, guias, pioneiros, em boy Scout, em Sempre Alerta. Portanto são muitos assuntos não? Risos. Mas porque penso tanto? Acho que o tempo passa, as horas passam e costumamos esquecer fatos importantes em nossa vida Escoteira. Quem já viveu tanto no escotismo ainda acredita que viverá muito ainda pela frente. As horas passam, os dias passam, vêm os meses os anos, e quando assustamos os cabelos ficam brancos muitos amigos novos chegando e outros partindo. Agora os passos não são os mesmos, ficaram trôpegos, a respiração já não é a mesma e porque não desistimos? Porque não procurar outro motivo para sentir o pulsar da vida?

Não sei. Acho que sei que não quero pensar em outra coisa. Claro minha família, meus filhos e finalmente porque não quero reconhecer que o escotismo foi tudo para mim? Assim como para milhares que como eu passaram e estão passando nas fileiras deliciosas de uma vida ao ar livre, dormindo sob as estrelas, molhando os pés na água gelada, escalando montanhas incríveis e fazendo deliciosos acampamentos? Mas chega uma hora que não podemos fazer mais isto. O corpo não ajuda. Não importa a mente, pois ela a cada dia mais amadurece. Ainda bem. Tem dias que a gente fica olhando a parede como se ela fosse uma tela gigante, a nos mostrar num ritmo de marcha escoteira o filme de nossa vida. As alegrias que tivemos em pertencer a este formidável movimento.

Ali naquela tela aparece à primeira promessa, o primeiro grande uivo, vestir o uniforme tão desejado, sentir cada peça colocada, colocar o chapéu ainda novo dando um toque aventureiro e sorrir. Ver a cores do meu lenço naquela tela, os acampamentos, cada um mais formidável que os outros. Ver os amigos que fomos colhendo pelo caminho, e o tempo vai passando, o filme é longo, tem histórias alegres, tristes e a gente até pensa e acredita que não é um filme real, um sonho gostoso que nunca existiu. Mas a realidade está ali viva. A força de um movimento está encravada em um coração que sonhou com ele e sabe que nunca vai esquecer.

Nesta seara que colhemos, os amigos vem e se vão. Faz parte da vida. Faz parte do nosso crescimento. Nada é imutável. Foram milhares de amigos, mas só uns poucos tivemos noção do que eram, do que fizeram do que sentimos por eles e os instantes de convivência quando os perdemos. Tive alguns em que a coexistência foi mais próxima. Uma viagem juntos, almoços, acampamentos longínquos, noitadas, convivência familiar, enfim são fatos que marcam e quando passa o tempo e ficamos sabendo de sua partida dá um nó na garganta, vontade de voltar atrás e dizer, não podíamos ter nos separado. Devíamos estar juntos até hoje, mas quem pode prever o seu destino?

A gente sabe que a vida passa e nos passamos pela vida como quem colhe rosas e espinhos. Na maioria das vezes o jardim das flores cujas fragrâncias nos inebriaram uma época agora são espinhos que nos machucam de leve como a dizer: O adeus da partida nem sempre tem o aceno do lenço, a lágrima que cai de mansinho, o livro aberto contando coisas gostosas sobre nós não existe mais, pois o vento forte fechou as páginas da vida. Não adianta dizer que fazemos parte de uma multidão que vai e vem e que o crescimento individual faz parte do viver, morrer  e nascer de novo. Sabemos disto, mas uma saudade angustiante vem de mansinho a machucar nosso interior que reluta em aceitar os fatos que são reais e imutáveis.

Sempre Alerta amigos de outrora que se foram. Sempre Alerta. Que os ventos que estão soprando do norte, do sul, do leste e oeste, levem a chama deste fogo que está firme em nossos corações, pois a canção é clara, não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus! Ao nosso lado sempre vai haver um Escotista novo ou não a dizer que quem foi Escoteiro nunca vai deixar de ser. Este movimento nos joga na corrente da vida e sabemos que mesmo nadando seremos levados pela correnteza. Pois ele é um movimento que não nos dá oportunidade de esquecê-lo. Não dizem que o escotismo é uma filosofia de vida? Viver, morrer e ser Escoteiro para sempre.


Boa noite meus amigos e minhas amigas. Boa sexta feira. Durmam bem. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O lindo alvorecer na morada da Terra do Sol.

Lembranças da meia noite.
O lindo alvorecer na morada da Terra do Sol.



               Tinha voltado da minha incrível caminhada de quinhentos metros, cansado, respiração ofegante e estava fazendo o meu breakfast quando bateram palmas na porta de casa. Domingo é sempre assim. Religiosos nos chamando para dizer se queremos ouvir a palavra do Senhor. Porque não? Gosto de vê-los lendo os mandamentos de Deus. Quando acontece descanso em uma cadeira, pois ficar em pé é difícil e ouço com amor, e olhem, nunca digo que sou espiritualista. Eles não gostam. Afinal ouvir é bom e não prejudica ninguém. Mas naquele dia não eram eles. Cheguei à porta da sala e vi no portão uma figura imponente que até me assustei. Cabelos brancos compridos até o ombro, barba branca bem penteada e uns olhos azuis que chamuscavam que olhava diretamente para ele. Vestia um paletó branco, comprido que ia até o joelho. Uma camisa azul brilhante com um pequeno lenço verde amarrado no pescoço. Usava uma calça de gabardine verde e calçava uma sandália de couro sem meias. Trazia nas mãos uma forquilha. Senhor! Que forquilha! Linda, marrom e cinza, e onde o V fazia uma curva acentuada parecia estar cravejadas de pedras preciosas em delicioso arranjo.

               Quem seria? Nesta cidade grande todo cuidado é pouco. Loucos, assaltantes, pedintes, vem às centenas bater em nossa porta. Mas o sorriso do "Velho" era cativante. Cheguei mais perto. Um perfume de flores do campo veio até a mim. O "Velho" sorriu e sem eu esperar me disse – Posso lhe dar um abraço? Fiquei estarrecido! Nunca ninguém bateu em minha porta oferecendo um abraço! Peguei as chaves, abri o portão e ele entrou como se estivesse entrando em um castelo de Reis. Encostou a forquilha encantada na parede e me deu um abraço! Gente! Que abraço. Eu com meus 72 anos me sentia como se fosse um menino sendo abraçado pelo pai. Fiquei sem jeito. – Aceita um café? – Obrigado. Mas não podemos perder tempo. Vou levar você para ver o alvorecer na Morada do Sol.

              Assustei-me. Tenho que tomar cuidado, pensei. Pode ser alguém com acesso de loucura – Ele como se estivesse lendo meus pensamentos sorriu e disse – Você precisa vir comigo. Sei que Dona Célia está fazendo a feira e volta logo. Mas estaremos de volta antes. – Pegou-me pela mão e sem fechar o portão saímos voando, ele me segurando, eu assustado! Ele soltou minha mão. Gente! Eu “volitava” sozinho no ar como se já tivesse feito isto há muito tempo. Em segundos estávamos em uma montanha, onde as árvores eram lindas, as folhas de um verde que nunca tinha visto e lá no alto um pico envolto em nuvens que para dizer a verdade, fez meu coração disparar. Lindo! Uma montanha das mais lindas que tinha visto – Como chama? Perguntei. – Você conhece você já esteve aqui. Serra do Sol Nascente. A morada do sol – Me lembrei. Mas não era assim! Eu disse. Ele me olhou e carinhosamente disse - Porque você só viu o que queria ver!

             De novo me pegou pela mão. Em segundos estávamos em uma cachoeira de uma beleza sem par. Linda mesmo. Uma névoa branca como se fosse orvalho caindo se formava em sua queda, o barulho da queda era como se fosse uma orquestra de cordas tocando maravilhosamente “The Lord of The Rings” e eu ali pensava – Devia ser um sonho. Pássaros dançavam balé fazendo acrobacias. – Onde estamos? Perguntei! – Na Cachoeira da Chuva, você já esteve aqui! – Como? Não vi nada disto que vejo agora. - Porque você só viu o que queria ver! De novo lá fomos nós a voar pelo espaço e em segundos chegamos a um vale, todo florido, flores silvestres de todas as cores que nunca tinha visto com um perfume inebriante, e a brisa leve tocando as pétalas e elas dançando ao sabor do vento. – Onde estamos? Perguntei! – No Vale Encantado da Felicidade. Você já esteve aqui. Muitas vezes acampando. – Não lembro, não lembro que fosse assim! – Porque você só viu o que queria ver!

              E lá fomos de novo voando nas nuvens brancas do céu. Descemos e ficamos a sombra de um lindo castanheiro. Era madrugada. O orvalho caia calmamente. Uma brisa fresca tocou-me o rosto. Foi então que assisti o cantar da passarada quando a manhã chega lépida e insistente. Havia beija flores, Tico-Tico, Sabiás, canários amarelos, pardais graciosos, uma multidão de pássaros pulando de galho em galho e com suas gralhas graciosas a cantar para todo o universo naquela bela manhã. Onde estamos? Perguntei – Não reconhece? O castanheiro do quintal da sua casa no passado. – Mas não era assim, eu disse. Ele gentilmente respondeu – Porque você só viu o que queria ver.

             E assim ele me levou a longínquos lugares perdidos neste mundo de Deus e sempre a me dizer – Você já esteve aqui. Por último, fomos até uma nuvem, enorme, milhares e milhares de escoteiros sentados, cantando canções sublimes. – Que lindas canções são estas? – As mesmas que você cantou sempre. Mas muitas vezes gritadas, sem nexo e você não procurou ver a beleza da melodia que elas possuíam, pois você só ouviu o que queria ouvir!

          Voltamos e como se eu fosse um pássaro alado no seu pouso encantador, avistei o meu portão e ele sorridente me disse – Procure ver as coisas como são, procure sentir a beleza das cores, do arco íris, dos lindos sonhos que acontecem com você. Procure ser sincero e diga a si mesmo que a beleza da vida e a felicidade sempre estão ao nosso lado. As cores são belas quando sabemos olhar com amor. Os cantos são belos quando sabemos diferir a letra e a música tocada. Os pássaros são sempre os mesmos, mas saber ver neles a beleza e a singela simpatia que eles têm é uma arte fácil de ser observada. Seus cantares e seus gorjeios sabem que transmitem amor e felicidade. – Ele me olhou e disse – Posso lhe dar outro abraço? E me apertou em seu corpo e de novo senti que era meu pai me abraçando. Saiu calmamente pela rua, escorando na sua linda forquilha cravejada de brilhantes e ao chegar à esquina, virou-se e deu-me um último adeus. Uma pequena nuvem apareceu e o levou ao céu que agora era de um azul profundo, tão azul que pensei que nunca tinha visto aquela cor como agora.

           Sentei na cadeira de sempre na minha varanda emocionado. A Célia chegou. Sorriu para mim e disse – O que foi? Porque esta sorrindo assim? Sabe mulher, porque sempre vi o que queria ver e agora procuro ver as coisas como devem ser vista. Nunca tinha observado como você é bela, a mais linda mulher que conheci! Fiquei em pé me aproximei e disse – Posso lhe dar um abraço?  


Boa noite meus amigos e amigas. Durmam bem.        

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O mundo enlouqueceu!

            Lembranças da meia noite.
O mundo enlouqueceu!



                    Não sabia o que dizer. Era incrível a notícia. De novo não. Não podia ficar tendo pesadelos assim. Pelo amor de Deus! Já estou "Velho" demais para isto. A continuar deste jeito, terei que buscar meu velho bastão escoteiro no fundo do baú ir para minha varanda e ficar fazendo continência para os transeuntes. Assim ficaria sem dormir por muitas noites. Melhor ficar de sentinela na minha varanda velando os borrachudos infernais que ter estes pesadelos absurdos! – Mas estava lá, em letras garrafais nos principais jornais do país. As televisões não sessavam de propagar aos quatros ventos: - José Maria Marin, presidente da CBF demite Luiz Felipe Scolari e toda a Comissão Técnica. Não sobrou ninguém. Ele quer tudo novo então convidou a cúpula da UEB para assumir! Pode! Meu Deus! Onde estamos?

                    Perguntado Marin respondeu – Temos que mudar. Se for para melhor não sei. Mas os diretores e presidentes da UEB tem muita experiência. Já mudaram tudo lá na organização deles. Agora precisamos de um choque de gestão aqui. Quem me aconselhou foi o Pelé. Até o Ronaldo também foi a favor. O Newmar foi contra. Pediu para ser vendido para o Cazaquistão. Claro, sei que haverá uma grita geral. O Juca Kifouri e o Tostão estão batendo palmas! Na coluna do José Simão ele escreveu – Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da Republica! Direto do planeta da piada pronta: Escoteiros vão ganhar a taça do marreco! Vem aí um novo técnico da seleção Brasileira. Vão escolher entre os diretores e dirigentes das regiões escoteiras!

                    A repercussão era enorme. Eliane Cantanhede da Folha de São Paulo escreveu dizendo que era o fim do mundo. Clovis Rossi disse – Danou-se! E Josias de Souza colocou uma tarja preta na sua coluna diária. O Estado de São Paulo e o Globo montaram barraca em frente à sede da UEB em Curitiba. O DEN e o CAN se reuniam em portas fechadas. Em todas as regiões os Diretores Regionais queriam participar. Perder esta boquinha? E-mails eram enviados a cada cinco minutos. Em Belo Horizonte um time de várzea botou todos seus jogadores de uniforme de escoteiros e desfilaram em carro aberto dos bombeiros pela Avenida Afonso Pena. Em Porto Alegre o Grêmio e o Internacional se revoltaram. No Rio de Janeiro só o Flamengo concordou. Eles tinham histórias escoteiras para contar.

                  Alguém da UEB saiu à porta – Primeiro ato ele disse – Vamos mudar o uniforme da CBF. Já temos um novo uniforme e para isto foi feito urgente pesquisas virtuais com muitos brasileiros. Segundo ato, continuou – Não queremos mais nenhuma taça do passado. Passado para nós não vale agora só o presente. E assim foi anunciando as mudanças. De norte a sul os chefes se dividiam. Em são Paulo a escoteirada foi às ruas gritando Curintians! Um pandemônio. Os Grupos Escoteiros fizeram reuniões as pressas. Queriam saber quem era bom de bola entre seus associados. Meu Deus!

                   Acordei gritando! Celia chegou correndo e me trouxe um copo d’água. Melhor veneno mulher. Melhor veneno. Não posso ficar sonhando assim! Não dormi mais. Peguei meu velho bastão de guerra e fiquei no portão da minha casa em posição de sentido e dando Sempre Alerta a todos que passavam!

Boa noite meus amigos e amigas. Que Deus vele o sono de todos.           

domingo, 25 de agosto de 2013

Lembranças da meia noite. A rede.

Lembranças da meia noite.
A rede.



          Até aquele verão de 1953 eu não tinha possuído uma rede. Nunca tinha pensado em ter. Afinal dormia bem no chão, seja forrado com capim ou sem ele. Dormia mesmo. Sono dos justos. Qualquer toco de madeira servia de travesseiro. Dormia muito bem obrigado. Dormi até em uma barraca suspensa, em cima do estrado de bambus sem nada. Dormia sentado ou encostado em uma árvore e um dia dormi em pé caindo como uma abobora no chão quando o sono bateu forte. Quase nunca usava lençol ou fronha de casa. Só uma Capa Negra que ganhei do meu avô. Dormi em cima de pedras pontiagudas em várias montanhas. Sem cobertor dormi até em locais frios, mas... Um dia acampamos com alguns escoteiros do nordeste. Gente boa, boníssima. Alegres um sotaque delicioso.

         Apareceram em nossa cidade como se fossem transportados por uma nave interplanetária. Turma de primeira. Disseram-nos que estavam fazendo uma jornada e a pé ou de carona pretendiam ir até o Rio de Janeiro. A Rio Bahia estava no auge, boa parte asfaltada. Quando os vi na Av. Prudente de Morais dei um belo de um sorriso. Aproximei-me e em alto e bom som gritei! Sempre Alerta! Na melhor pose que conhecia. Eles me olharam espantados. Eram cinco. Não lembro os nomes. Estavam vindos de Jequié na Bahia. Logo apareceram outros escoteiros do nosso grupo. Lá fomos nós com eles até a sede. Causos e causos.

        Levei um para minha casa e os outros ficaram sem jeito pela insistência de mais de trinta escoteiros brigando para levarem eles para suas casas. Era assim na época. Ver alguém de outro grupo era uma apoteose. O que foi para minha casa não quis dormir em meu quarto. Aproveitou o pé de manga e o pé de abacate e ali amarrou sua rede. – Você vai dormir aí? – Porque não? É minha cama preferida! Calei-me. No meu quarto fiquei pensando em dormir em uma rede também. Fácil de colocar na mochila seria uma mão na roda. Ficaram quatro dias e partiram em uma manhã ensolarada. Ficamos muito amigos e quando partiram senti saudades.

        Coloquei na minha mente que devia ter uma rede. Nas lojas em minha cidade custava uma nota. Não importava. Chegava da escola, pegava minha caixa de engraxate e partia para o centro da cidade. Demorou quatro meses, mas consegui a quantia necessária e comprei a rede. Levei para casa. Amarrei-a no pé de abacate e o de manga. Fiquei ali um tempo enorme admirando minha nova amiga. Sentei e deitei. Gostoso. Meia hora depois me virei e fiquei virando e virando. Danada de rede. Não seria fácil acostumar. Na semana seguinte fomos acampar na Serra da Gamboa. Ia matar todo mundo de inveja. Levei a rede. Lá chegando todos assustaram. Uma linda rede. – Vais dormir aí? – Claro, melhor que no chão duro! Um frio danado. A manta não cobria tudo. Gelava por baixo. Fiz um fogo próximo. Nada. Fiz outro do lado contrário. Nada.

         Lá pelas três da manhã não aguentava mais. Não tinha dormido e sempre fazendo foguinho aqui e ali. Não queria dar o braço a torcer com meus amigos e voltar para a barraca. Seria um vexame. Eles riram quando disse que ia dormir ali e tinha de dormir. Quatro da manhã e o frio piorou. Um clarão iluminou a mata. Um trovão abateu em cima de mim. A chuva caiu torrencialmente. Fiquei ali na rede. Tinha dito que ia dormir nela e tinha de dormir. Meus amigos dormiam sono solto na barraca e o idiota lá na rede molhado e na chuva.

         Nunca mais. Nunca mais mesmo iria dormir em uma rede. Não era para mim. A levava sempre, mas para forrar a barraca. Uma rede. É boa para sentar deitar e tirar uma soneca. Mas vá lá dormir em um acampamento de quatro ou cinco noites com o frio a gelar o esqueleto? Deixo para meus amigos escoteiros nortistas. Eles são bons nisto. Até hoje fico pensando porque não acostumei. Mas eu dormia gostoso no chão duro, nas pedras, em cima de pontes, em trilhas, em capim meloso, braquiária, colonião, no meio das samambaias, ou seja, lá o que for. Que chovesse canivete. Mas na rede? Nunca mais!


Boa noite meus amigos e minhas amigas. Que lindas estrelas no céu iluminem seus corações para sempre.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

As coisas belas da vida. Quebra Coco. O último desafio!

Lembranças da meia noite.
 As coisas belas da vida.
Quebra Coco. O último desafio!



                 Acho que o tempo apagou estas lembranças incríveis. Quase não vejo ninguém comentando. Claro, são os novos tempos. Novas músicas. Novas canções e quem se anima a cantar as antigas? Elas devem ter ficado lá ao longe em um passado distante. Nem todos irão lembrar-se como foi e acho que poucos participaram do Quebra Coco na sua simplicidade de um bom desafio. E meu Deus! Como era gostoso cantar e ver os desafiantes, com suas cabeças pensantes, a meditar o que iam dizer. Eu mesmo posso dizer que tentei quando cresci manter a chama do Quebra Coco como o conheci. Acho que não fui feliz. Os jovens não se interessavam mais. Tudo foi mudando, novas ideias novos Fogos de Conselho. Quem diria que naquela época teríamos um animador de fogo? Nunca! Animador? Nem pensar.

               Para dizer a verdade acho que foi quando fiz um ano de lobo foi que ouvi pela primeira vez o Quebra Coco. Estávamos acampados na Vertente do Vale Feliz. Lobos acampando? Risos. Claro, era comum. E porque não? Era mais divertido. Lembro-me do Miúdo (era nosso Baloo, nunca fiquei sabendo seu nome real) e do Munir Boca Grande (nossa Bagheera) a fazer os almoços e jantas e que manjar! Eles eram bons e todos nós em volta ajudando, buscando água, lenha, cantando e contando “pataquadas”. Bons tempos. Já tinha participado de dois Fogos de Conselho. Não sabia como era o Quebra Coco. Foi o Akelá Laudelino Pé de Chumbo quem explicou. Tratava-se de um desafio entre escoteiros. A tropa antes de encerrar o Fogo de Conselho faziam o desafio. No começo todos participavam, mas depois de algum tempo ficavam dois ou três. Os demais não eram bons repentistas.  

              Na tropa era minha diversão favorita nos Fogos de Conselho. Desenvolvi uma facilidade grande em criar versos. Nada dos conhecidos. Isto era para Patas Tenras. Poucos tinham a “audácia” de me desafiar. Já começava cantando assim – “Meus amigos, escutem bem, hoje estou um pouco rouco, mas é bom ficar sabendo, sou o campeão do Quebra Coco” e daí em diante não parava mais. Mas tudo mudou, pois quebraram meu orgulho de cantador. Fomos acampar em Serra Vermelha com uma Tropa da cidade de Rio Grande e foi um desastre. Todos da tropa perguntavam se nós tínhamos bons “cantadores” do Quebra Coco. Apontavam-me e eu ficava todo orgulhoso. Não falaram nada do Mandinho. Um Escoteiro magrelo, desengonçado e achei até que ele era gago. Quando chegou a hora e ele em pé aceitou meu desafio, sorri de leve. “Este estava no papo”.

               Deus do céu! Onze horas, meia noite e o danado lá aceitando todos meus versos e devolvendo em dobro! O Chefe disse que quem quisesse podia ir para as barracas, mas ninguém arredou o pé. Minha cabeça fervilhava, a busca de versos era medonha. Mais de quatro horas e o danado do Mandinho ali com um sorriso simples, sem afetação me colocando no chinelo! – Entreguei os pontos. Fui lá do outro lado à fogueira cumprimentá-lo. Parabéns Mandinho. Perdi mas estou orgulhoso de você! Quase desisti para sempre do Quebra Coco. Mas uma coisa sempre tive em mente, ganhar é bom, mas saber perder é uma arte. Isto sempre nosso Chefe Jessé dizia.

               Os tempos foram mudando. Participei de muitos Fogos de Conselho. O Quebra Coco se tornou saudades de um tempo que já se foi. Outras canções trazidas pelos novos chefes, e ele, o meu amado Quebra Coco ficou na história de um livro que não foi escrito. “Quebra Coco, Quebra Coco, na ladeira do Piá, Escoteiro Quebra Coco e depois vai trabalhar”! Até hoje eu canto com boas lembranças. Se que a origem é nordestina. Deve ter começado com os repentistas esses maravilhosos cantadores que encantam até hoje os que apreciam a música nordestina.

             As lembranças não saem da memória. Na minha varandinha querida comecei a cantar baixinho. Lá é o meu recanto. Onde penso e faço minhas histórias. Sentei na minha cadeira rústica e olhei pela fresta do portão e vi a meninada jogando bola. Uma rua íngreme. Poucos carros. Cada um se diverte como gosta. Cantava baixinho o Quebra Coco. Saudades vem e vão e eu um dos últimos representantes de uma época, vou lembrando como posso dos meus tempos de criança. Quebra Coco, O meu Chapéu tem Três Bicos, A Árvore da Montanha e tantas outras. Onde está meu violão? Acho que as cordas arrebentaram. Preciso comprar novas e ficar na minha varandinha a cantar. Fazer a melodia brotar de novo pelo som do meu violão. Quebra Coco, Quebra Coco, na ladeira do Piá...


Boa noite meus amigos e minhas amigas. Durmam com Deus.